Depoimentos


APRECIAÇÃO DO LIVRO “A GUERRA DOS FARRAPOS” - ALCY CHEUICHE  - OUTONO 2006
Ivette Tôrres Dorneles

 

Diz a música: “Mania é coisa que a gente tem, mas não sabe porque...” Eu tenho muitas manias. Sempre tive, mas dia a dia percebo que se agravam ou se acentuam. Deve ser por causa da idade e do tempo que passa rápido demais, o que me leva a não fazer concessões desnecessárias.

E tenho paixões. Ler é uma delas. Mas só entendo a leitura com um lápis na mão. Vou sublinhando aquilo que me agrada, ponho pontos de interrogação no que não entendo ou não concordo, faço círculos nas palavras desconhecidas, etc. Por isso tenho muita dificuldade em ler livros emprestados. E não leio livros de bolso. Esta, não sei bem como explicar. Deve ser pelo tamanho reduzido e o incomodo do manuseio.

E outra mais: não costumo ler com prazo, por obrigação ou encomenda. Por que? Porque leio vários livros ao mesmo tempo. Minha mesa de cabeceira abriga sempre: Rubem Braga, Érico Verissimo e Alcy Cheuiche. Mas também tenho companheiros flutuantes como Lygia Fagundes Teles, Artur Azevedo, Agatha Christie (por que não?), Dalton Trevisan, Assis Brasil, Cyro Martins (minha mais nova descoberta) e tantos outros.

Bem, vou ao que realmente interessa. Na semana passada me foi dada a missão de ler “A Guerra dos Farrapos”, uma novela do escritor Alcy Cheuiche. Muito bem. O exemplar que tenho é de bolso. Quase fora de cogitação. Depois de passar um dia no dilema “ler ou não ler, eis a questão”, decidi fazê-lo em outra oportunidade e em ideais condições. Mas dias depois o senso do dever falou mais alto.

Li em algum lugar que, se um livro não te seduzir até a décima página, desista dele. Parta para outro, pois este desperdiçou a oportunidade. Com “A Guerra dos Farrapos” a sedução se deu na primeira página.

Encontrei um guri esperto e curioso, que sorrateiramente entra no álbum de família para conhecer sua estória. Logo me identifiquei com ele. Lembrei de uma menininha que aos oito/nove anos folheava a revista Casa e Jardim, e entrava naquelas páginas coloridas com casas lindas, para receber as amigas ou simplesmente descansar nos jardins maravilhosos.

O tal menino cresceu e com ele também cresceu a curiosidade. De repente decide experimentar seus poderes enferrujados. Vai até a ponte da Azenha, em plena Porto Alegre, e entra na história do Rio Grande. Não resisto à tentação e vou com ele.

Estamos na noite de 19 de setembro de 1835. Sem sermos percebidos observamos a retirada dos imperiais acuados por apenas sete rebeldes liberais. Os quais se transformaram em mais de mil, na ótica medrosa do Visconde Camamu. E por ali seguimos. Vamos até Isabel Leonor, esposa de Gomes Jardim, que está no comando do combate na Azenha, na companhia corajosa dos filhos mais velhos. Aflita, a pobre, a espera de notícias de seus amados dedilha o rosário num misto de devoção e pressa. Tomamos mate com Silva Tavares na noite anterior à sangrenta Batalha do Seival. Estávamos lá quando João Manuel de Lima e Silva caiu morto dentro de uma igreja. E presenciamos Roque Faustino sair a galope no cavalo picaço. Sofremos com Bento Gonçalves na sua prisão longe dos pagos, e a fuga mar adentro. Demos as boas vindas a Garibaldi e seu amigo Luigi Rossetti. Rimos e choramos com Ana, que mais tarde se tornou Anita Garibaldi. Navegamos por mares calmos e bravios nas escunas “Caçapava” e “Rio Pardo”. E assim, cruzamos com muitos outros personagens da história riograndense.

Não sou pretensiosa a ponto de dizer que conheço a obra de Alcy Cheuiche, mas tenho e li quase todos os seus livros. E ainda não sei se gosto mais dos diálogos inteligentes ou das descrições primorosas. Senão vejamos:

“- Pois então beba um trago. Não demora o assado está pronto.

Uma barriga cheia vale por um sono.“

Silvestre olhou curioso para o tio.

- Só tinha ouvido isso ao contrário.

- Pois então vira de novo pelo avesso.” Ou:

“No galpão dos fundos da casa, um fogo grande clareava a meia-dúzia de rostos barbudos. A chuva parara, mas o vento entrava forte pelas frestas pau-a-pique, fazendo dançar as chamas e a fumaça. Era um fogo de chão. Ao redor dele, os homens emponchados falavam em voz baixa, quando falavam. Nos silêncios compridos, ouvia-se claramente o roncar da bomba de chimarrão. Não havia chaminé nem outra saída para a fumaça, a não ser as frinchas das paredes ou a porta quando se abria. Por isso o teto era negro de picumã e o cheiro grudento do galpão andava léguas com quem dali saía”.

Alcy descreve com tal fidelidade, que minha imaginação me levou a sentir o frio que invadia o galpão e a aspirar o cheiro da fumaça que impregnou também em minhas roupas.

Neste livro encontrei personagens de quem eu ouvira falar nos bancos escolares, lá na minha juventude, mas os quais eu não conhecia. O homem feito que me guiou por essas páginas, cria daquele menino curioso, realmente me apresentou a uma valorosa parte da nossa história. Como ele disse, lá no inicio do livro: chegou a hora de tomar partido. Eu tomei o meu.

Hoje, ouvindo o Governador Germano Rigotto se queixar do Governo Federal, constato que os motivos da Revolução Farroupilha ainda perduram. Mas já não existem homens como aqueles. E talvez seja melhor assim...

 

Escritor de elite, Alcy Cheuiche é um dos mais qualificados prosadores do Brasil, com uma bibliografia esplêndida, enriquecida agora com o livro que o leitor tem nas mãos. Uma dádiva rio-grandense e brasileira para a  literatura internacional.
Mozart Pereira Soares
A FLOR DE LÓTUS

Um tiro invade a pg.77, desmoronado um corpo cai, emitindo ruídos secos na areia. Plumagens negras espreitam o ferido. Jabal Lubnàn reedita Walt Whitman, cuidando os mutilados da guerra civil americana e acumula um pouco de Rimbaud com suas armas no ostracismo africano. Mantidos os paralelos, cedro vira espinilho e o Líbano as várzeas  do rio Camaquã. Cada pátria tem a sua flor de lótus. 300 foram os pomos ceifados pela carniceira de Adão Latorre, faca que perfura vozes. Não muito longe, um bem-te-vi pousa no galho da acácia. Alcy, estamos diante de um belo romance, impregnado de arte real e cozido em simétricas brasas.
Élvio Vargas.
Alcy Cheuiche - Patrono da 7ª Feira do Livro de Gramado / RS
"... Uma de suas honrosas ambições é pelear por um estilo. E o achou. Isto basta para situá-lo entre os mais notáveis ficcionistas do Rio Grande do Sul, entre os mais identificados com sua gente, seus ideais de cara
limpa, e suas noites estreladas." 
                                                            Armindo Trevisan