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Idéias não são metais que se fundem
Alcy Cheuiche*
Discute-te sobre o deslocamento dos restos
mortais de Gaspar Silveira Martins de Bagé para a cidade gaúcha
que recebeu seu nome. Não em definitivo, é claro, que isso os
bageenses jamais tolerariam. Mas assim como um “passeio histórico”
para honrar o grande político brasileiro em data de importância
para a comuna de Silveira Martins.
Não vou entrar na polêmica sobre
a conveniência ou não de mexer com os despojos do líder
federalista. Mas fiquei fascinado com a oportunidade que o fato
nos dá de recordar seus feitos e, principalmente, suas idéias.
Pois isso, acima de tudo, define sua biografia. Um pregador de
idéias. Uma mente poderosa a serviço da liberdade e da democracia.
Silveira Martins
foi o líder intelectual da Revolução Federalista de 1893 que
enfrentou a ditadura de Julio de Castilhos, legalizada pela
Constituição de 1891, escrita pelo próprio Castilhos. Isto é,
legalmente, o poder executivo tinha poderes ditatoriais. Mas nem
sempre o que é legal é justo. E foi em busca da justiça que
Silveira Martins, Joca Tavares, Gumercindo Saraiva e tantos outros
líderes rio-grandenses lutaram contra a deturpação do regime
republicano.
A República nasceu no mundo,
todos sabemos, sob a égide do lema “Liberdade, Igualdade e
Fraternidade”. Assim, se não há liberdade de eleger seus
dirigentes, se não há liberdade de criticá-los nos bares, nos
lares, nos parlamentos, na imprensa, mesmo se essas críticas
forem injustas, não há regime republicano. Numa república, existem
mecanismos para defender o cidadão contra o estado e o estado
contra o cidadão. Para os reis absolutistas, vale sempre
lembrar, qualquer crítica era uma ofensa lesa majestade, qualquer
opositor um candidato à prisão ou à morte. L’état c’est moi,
disse Luís XIV, quando um ministro alertou-o de que suas ordens
contrariavam as leis do estado, as leis da França. Com essa frase,
esgotou a possibilidade de uma monarquia democrática no seu país,
como existe hoje na Espanha, por exemplo, e incentivou a revolta
que iria mais tarde derrubar a bastilha e guilhotinar Luís XVI.
Chegando legalmente ao poder na
Venezuela, mas depois de uma tentativa de golpe militar, Hugo
Chaves está seguindo a risca a cartilha para transformar-se de
presidente em ditador. Começou governando com um parlamento livre
e agora governa por decreto. Foi eleito com liberdade de imprensa
e agora não aceita a mínima crítica ao seu governo. Qual é a
ideologia do nosso Presidente que o chama de democrata e
companheiro, discursa como se ainda fosse um líder operário, mas
propicia aos bancos os maiores lucros da história do Brasil? Qual
a ideologia de quem tenta fundir em seu governo as idéias
antagônicas e muitas vezes oportunistas de onze partidos
políticos?
Idéias não são metais que se
fundem, disse Gaspar da Silveira Martins. Porque, segundo ele, só
se fundem nas caldeiras da ditadura e da corrupção.
* Escritor, membro da Academia Rio-Grandense
de Letras.
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Adeus a
um homem bom
Alcy Cheuiche*
Foi à missa, tomou café
normalmente e depois morreu. Tranqüilo e sereno seguiu no rumo do
céu.
Assim se poderia deixar em duas
frases nosso adeus a um homem bom. Um homem que nos recorda, no
apogeu de tantos homens maus, os versos de Bilac para a língua
portuguesa: ouro nativo que da ganga impura, a bruta mina entre os
cascalhos vela.
Perdemos o Irmão Elvo Clemente na
manhã de 19 de setembro de 2007 e o estamos enterrando hoje, no
dia do gaúcho, no cemitério do Centro Educacional Marista de
Viamão, cidade que os farroupilhas chamavam de Setembrina. Vai
descansar na mesma terra em que morreu o grande amigo de
Garibaldi, Luigi Rossetti, outro intelectual e jornalista italiano
que escolheu o Rio Grande do Sul como querência.
Nascido em Maróstica, Itália, em
1921, seu nome do registro civil era Antônio João Silvestre Mottin.
Mas adotou junto com o Brasil o nome de irmão marista e com ele
ganhou enorme respeito e carinho de seus contemporâneos.
O Irmão Elvo Clemente foi um
homem de muitos amores. O maior deles, sem nenhuma dúvida, a
religião católica, o culto a Nossa Senhora, na tranqüilidade de
sua maravilhosa fé. Despido de qualquer sectarismo, convivia com
crentes e descrentes com a mesma ternura. Depois da religião, e
junto com ela, a literatura foi outra grande paixão. Doutor em
Letras Clássicas e professor titular da Faculdade de Letras da
PUCRS, deixou sua marca em milhares de alunos, em centenas de
artigos, em dezenas de livros. Convivia com os autores clássicos
como se os houvesse conhecido pessoalmente, emocionando-se ao
citar trechos de antigos pensamentos, de velhos poemas. Estimulava
os autores jovens e não disputava espaço cultural com ninguém,
recebendo as honras como encargos, cumprindo todas suas tarefas
com o zelo de um missionário. Meu Deus, como poucos seres humanos
são assim!
Membro da Academia Rio-Grandense
de Letras há muitas décadas, morreu, aos 86 anos, no exercício da
presidência. E esta entidade, fundada em 1901, foi outro dos seus
grandes amores. Cuidava dela como se fosse um bem muito raro e
sempre a colocava em primeiro lugar na repartição do seu tempo de
trabalho. E para nós, seus colegas, dedicava o carinho especial
reservado aos irmãos.
O irmão Elvo foi à missa, tomou
café normalmente e morreu. Tranqüilo e sereno seguiu no rumo do
céu. Foi-lhe poupado o sofrimento da agonia e a dor de sua
ausência vamos ter que repartir entre nós.
* Escritor, membro da Academia Rio-Grandense
de Letras.
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O Batalhão Sagrado
Alcy Cheuiche*
No dia 7 de abril de 1831, o Imperador
D.Pedro I foi obrigado a abdicar e abandonar o Brasil. Por essa
razão, até hoje recordamos essa data em algumas ruas e naquele
lindo teatro de Pelotas.
Dizem que o ex-Imperador mal olhou para
trás quando sua nau deixou o Rio de Janeiro. Na sua cabeça já
estava estabelecido o plano de retomar o trono de Portugal e
uni-lo outra vez ao Brasil. De fato, depois de muitas peripécias,
chegou a ser coroado D.Pedro IV, mas não tardou a morrer. Ficou em
Lisboa uma estátua sua, que todos os brasileiros estranham quando
a vêem pela primeira vez. Desde crianças tínhamos aprendido a
reconhecê-lo pelo rosto sem barbas e ali está ele barbudo como
D.Pedro II.
Este coitado tinha apenas cinco anos
naquele 7 de abril de 1831 e quase por um milagre conseguiu
ascender ao trono. E o artífice maior desse feito, hoje a história
reconhece, foi Luiz Alves de Lima e Silva, seu professor de
esgrima desde os sete anos de idade. Major naquela época,
reconhecido como um dos mais brilhantes oficiais do Exército
Brasileiro, o futuro Duque de Caxias apegou-se ao menino e
jurou-lhe fidelidade para toda a vida. D. Pedro II, que recebeu a
maioridade com apenas quatorze anos para que pudesse reinar,
também transferiu para Caxias muito de seu afeto filial. E devemos
à coroa de D.Pedro II e à espada de Caxias a incrível unidade
territorial brasileira. Inclusive a recuperação do Rio Grande do
Sul, cuja perda era praticamente aceita pela regência até 1840.
Tudo isso que acabo de contar, salvo
talvez o fato de que Caxias foi professor de esgrima do Imperador
menino, é do conhecimento da maioria dos brasileiros mais cultos.
Mas o que poucos sabem é o fato de que Caxias, nos dias que
antecederam o golpe contra D. Pedro I, colocou-se a seu lado para
defendê-lo. Seu argumento, inclusive contra o pai, General
Francisco de Lima e Silva, futuro Regente do Império, foi o de que
o Brasil cairia em um vazio de poder no momento em que D. Pedro I
deixasse o país.
E foi o que realmente aconteceu,
principalmente no Rio de Janeiro. Contam os cronistas da época,
que era tal o número de desertores das Forças Armadas, que a
polícia não tinha condições de combatê-los e os criminosos tomaram
conta da capital. As famílias ficavam trancadas em suas casas,
enquanto ladrões, assassinos e estupradores percorriam impunemente
as ruas praticando os crimes mais hediondos. E foi então que o
Major Luiz Alves de Lima e Silva resolveu reagir.
Quase todas as noites, durante alguns
meses, o futuro Patrono do Exército percorreu as ruas do Rio de
Janeiro no comando de um grupo de oficiais dispostos a enfrentar
os criminosos. Usando as espadas para escorraçar os ladrões e
armas de fogo para matar os assassinos a solta, conseguiram os
integrantes desse grupo de voluntários a façanha de devolver a paz
às ruas do Rio de Janeiro. E pareceu ao povo tão incrível aquele
feito, que os cariocas chamavam o grupo de militares pelo nome de
Batalhão Sagrado.
Penso nisso quando o Rio de Janeiro
está outra vez nas mãos dos bandidos, desta vez melhor armados e
até mancomunados com uma parte da polícia, e alguns consideram que
o Exército, a Marinha e a Aeronáutica não devem tomar parte ativa
nessa guerra civil. É claro que não se deve mandar às ruas
conscritos de dezoito anos que estão apenas em treinamento
militar. Mas tropas profissionais, como as que se encontram no
Haiti com a mesma finalidade, podem e devem servir a Pátria em
qualquer trincheira. Se Caxias fosse major e tivesse trinta anos,
seguramente assumiria o comando deste novo Batalhão Sagrado.
*Escritor
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Pitangas na Feira
Alcy Cheuiche*
Quando menino, sonhei muitas vezes com
a casa de chocolate de Joãozinho e Mariazinha. Depois, acabei
convencido que ela só existia nos livros. E sonhei com uma casa
feita de livros. Afinal, eles não têm mais ou menos a forma de
tijolos? Pois agora, já bem grisalho, recebi de presente uma praça
toda de livros. Durante dezessete dias, fui abordado por pessoas
que me diziam, com os olhos brilhando:
- Como está bonita a sua Feira!
E eu concordava, feliz, como se ela
fosse verdadeiramente minha. E pensava na música da infância: se
essa rua fosse minha, eu mandara ladrilhar, com pedrinhas de
brilhantes... Erguia os olhos e via todas as árvores da praça, até
o guapuruvu que caiu, enfeitadas de Natal. E via com orgulho, lá
na beira do Guaíba, milhares de crianças extasiadas com os livros
espalhados pelo porto. Um porto alegre, finalmente, depois de
tantos anos escondido tristemente atrás de um muro.
Vivi cada minuto da nossa Feira do
Livro. Desde a abertura no Teatro Sancho Pança (nome melhor
impossível de escolher), quando recordei a minha versão do
nascimento do Mario Quintana em Alegrete, até o momento em que fui
chamado, no mesmo palco, para cantar de brinquedo com os
fantásticos profissionais do Concerto Zaffari.
Momentos marcantes não faltaram. O
carinho de amigos, leitores e autoridades em centenas de mensagens
que não tive tempo de agradecer. A homenagem que recebi dos
colegas da Associação Gaúcha de Escritores, coordenada pela Jane
Tutikian. As palestras e debates sobre Sepé Tiaraju e Santos
Dumont (e os passeios que fiz com o Voltaire Schilling, o
WalterGalvani, o Maurício de Souza, o Ziraldo e muitas crianças
junto aos painéis fotográficos onde contamos a história do
“brasileiro voador” nos céus de Paris). A emoção das pessoas na
Biblioteca do Patrono quando assistiram a apresentação do livro
“Os doze trabalhos de Hércules”, de Monteiro Lobato. A palestra no
Instituto Histórico e Geográfico dedicada a mim pela colega
portuguesa Dulce Matos. A visita do meu editor alemão Christoph
Jahn. Os muitos autógrafos que dei nos mais diferentes locais da
feira. O almoço com os alunos da Oficina de Criação Literária e a
maravilhosa sessão de autógrafos que se seguiu. As fotos do
artista Luis Ventura. O cuidado com a agenda e com todos os meus
passos que tiveram a Jane e a Rejane, meus dois anjos da guarda.
As mais de duzentas entrevistas para jornais, rádios e emissoras
de televisão, sempre num clima de entendimento e até de carinho.
As relações fraternas com o verdadeiro “Dono da Feira”, o amigo
Waldir da Silveira, Presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro. O
orgulho que senti do povo gaúcho e de nossos intelectuais pela
dupla eleição de um idealista de Taquara, um verdadeiro operário
das letras no Fato Literário da RBS.
Boas piadas também aconteceram. Para
mim, a melhor foi o comentário de um menino quando a professora
parou seus alunos para apresentá-los ao patrono. O que é um
patrono? Perguntou ele olhando firme para mim. Respondi com a
fórmula habitual: o patrono é um escritor eleito para representar
na Feira do Livro todos os escritores do Rio Grande do Sul. A
resposta veio rápida e sincera: mentira tua!
Bueno, boas recordações não vão faltar
por muito tempo. Uma das mais lindas foi da multidão que me
esperava na primeira tarde de autógrafos em que passaram pelas
minhas mãos, como velhos amigos, doze dos meus livros. (Mesmo
depois de quarenta anos de literatura, ainda me impressiono com a
paciência das pessoas esperando na fila). Estava escrevendo um
autógrafo para o Prefeito de Caçapava do Sul quando o Remaldo
Cassol colocou sobre a mesinha um pacote cheio de pitangas. E me
disse: são do pátio do Catarino Coutinho. Provei uma e recebi de
volta toda a minha infância. Muito obrigado, meus amigos, meus
irmãos. Não poderiam ter escolhido um presente melhor.
* Escritor
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Jornal Nacional nas Missões Guaranis:
entre tapas e beijos
Alcy Cheuiche*
Os beijos começam pela escolha
de São Miguel das Missões como ponto de partida da caravana do
Jornal Nacional que vai percorrer o país para mostrar “os anseios
e desejos dos cidadãos”. Nenhum local em nossa latitude é mais
importante do ponto de vista histórico e político. As ruínas da
catedral, famosas no mundo inteiro, foram tombadas pela UNESCO, em
1983, como “Patrimônio da Humanidade”, o único do Rio Grande do
Sul e um dos poucos do Brasil. E essa escolha se fez não somente
pela ousadia do famoso arquiteto jesuíta Giovane Batista Primoli e
da tarefa hercúlea dos índios que a construíram com entusiasmo e
amor, de 1734 a 1744, e a queimaram em 1756 para não entregá-la
intacta aos invasores espanhóis e portugueses. São Miguel é, acima
de tudo, o símbolo de uma experiência educativa e cultural que
revelou ao mundo a mais perfeita sociedade socialista cristã de
todos os tempos. E a única oportunidade que os índios americanos
tiveram para mostrar, durante mais de cem anos, as suas qualidades
sociais e culturais.
E isso eu não
afirmo sozinho. Desde Voltaire, no século XVIII, até o Governo do
Rio Grande do Sul que acaba de reconhecer oficialmente um líder
missioneiro, Sepé Tiaraju, como herói rio-grandense nos 250 anos
de sua morte, os trinta e três povos das missões não podem ser
confundidos com o “fundamentalismo dos aiatolás”, um tapa na cara
da história missioneira. Quanto ao termo reduções, dizer que
tinham esse nome porque “os índios eram de fato reduzidos ao poder
jesuítico” é uma asneira semântica. Em verdade, a palavra redução
significa recondução, a partir da frase em latim: Ad eclesiam
et vita civile reductere, que significa “reconduzir à Igreja e
à vida civil”. Essa acusação é velha e superada, como a que afirma
que os índios comiam os bois que lhes davam para lavrar a terra.
Em verdade, com a destruição das reduções guaranis, os invasores
portugueses e espanhóis “herdaram” dois milhões de cabeças como
espólio de guerra, abigeato gigantesco que foi a base de toda a
riqueza pastoril do sul do Brasil, e propiciou aos alemães que
chegaram em 1824 o início da até hoje próspera indústria
coureiro-calçadista. Vamos respeitar os índios guaranis, eles não
eram (e não são) bobos como muitos brancos ainda continuam
pensando.
* Escritor, autor do livro “Sepé Tiaraju”,
com edições em português, espanhol e alemão.
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Sepé Tiaraju, símbolo da nação guarani
Alcy Cheuiche*
Guarani, em seu próprio idioma, significa guerreiro. E foi como
guerreiro que morreu Sepé Tiaraju no entardecer do dia 7 de
fevereiro de 1756. Ou seja, há exatamente duzentos e cinqüenta
anos.
O combate se deu
no atual perímetro urbano de São Gabriel, cidade que acolhe no
dia de hoje milhares de peregrinos. Podemos chamá-los assim
porque São Sepé foi
canonizado há mais de dois séculos pelo povo, e nos ensinaram
que a voz do povo é a voz de Deus.
Mas como figura histórica, Sepé Tiaraju dispensa as
lendas e os altares. É o maior símbolo da nação guarani e da
saga missioneira. Nivelando-se e até superando, em termos americanos, outros
índios que lutaram contra o invasor, como Cuautêmoc e Tupac
Amaru.
O que dói em muitos brasileiros é que os invasores do
nosso território eram portugueses e espanhóis. Um exército bem
armado de três mil e quinhentos homens, representando duas das
maiores potências coloniais da época. Três dias depois da morte
de Sepé, a 10 de fevereiro de 1756,
essas tropas dizimaram a canhonaços cerca de mil e
quinhentos índios armados
apenas com lanças, arcos e flechas. E depois seguiram até os
Sete Povos, destruindo a ferro e fogo um dos maiores sonhos cristãos
de todos os tempos. Um verdadeiro “Patrimônio da Humanidade”
como a UNESCO tombou as ruínas de São Miguel.
Se os dirigentes atuais de Portugal e Espanha tivessem a
grandeza do Papa João Paulo II, poderiam pedir perdão aos
guaranis por esse massacre. Poderiam até, a exemplo do governo
alemão com os judeus do holocausto, indenizar os infelizes
sobreviventes dessa nação que
vivem da caridade pública. Aliás, na Alemanha, existe uma
lei chamada de Auchwitzlüge (mentira de Auchwitz) para
sumarizar os processos de julgamento dos que ainda negam o
assassinato de milhões de judeus nas câmaras de gás. Em síntese,
quem mentir que esses crimes não aconteceram, vai preso. Seria
bom que tivéssemos uma lei semelhante no Brasil e em toda a América
para os que negam o genocídio de milhões de índios desde o
Alasca até a Patagônia. E sentem até vergonha desse sangue que
corre em nossas veias.
Mas o momento é bom para os sobreviventes da nação
guarani. Depois do fiasco dos duzentos anos de sua morte, quando
as autoridades lhe negaram um monumento, Sepé Tiaraju foi
reconhecido oficialmente como herói rio-grandense.
O projeto do deputado Frei Sérgio Görgen foi aprovado por
unanimidade na Assembléia Legislativa e sancionado pelo Governador Germano Rigotto. E esse exemplo
deverá alertar muitas consciências sobre a dívida que temos com
todos os índios do Brasil.
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Hablando Espanhol, Português
e Guarani
Alcy Cheuiche*
Em 2001, participei do encontro Porto Alegre/Buenos Aires,
realizado na capital argentina. Um dos grandes momentos foi quando
fomos recebidos na Comissão de Cultura da Câmara de Deputados.
Discutiu-se a maneira de estreitar nossas relações através das
artes e letras, e um dos pontos de contato foi a História das
Missões Guaranis, comum a nossos dois países. A Argentina tem até
uma província com o nome de Misiones e nós conseguimos o
feito de conquistar o título de Patrimônio da Humanidade para as
Ruínas de São Miguel. Popularizar o tema foi uma estratégia
considerada positiva, e a vitória da Escola de Samba
“Beija-flor de Nilópolis”, quatro anos depois, mostrou que
estávamos certos em pensar assim.
Pois
naquele encontro em Buenos Aires, liderado pelo então Prefeito
Tarso Genro, tivemos alguns momentos de verdadeiro intercâmbio,
mas ficou patente uma deficiência de ambos os lados. Poucos de nós
falavam espanhol e nenhum deles falava português. E o portunhol,
com mil perdões ao nosso Ministro da Cultura, às vezes atrapalha
mais do que ajuda na comunicação. Recordo que um dos escritores
gaúchos que parecia em casa era o nosso Carlos Urbim, doble
chapa de Livramento e Rivera.
Pois agora, tomo conhecimento que,
finalmente, vai começar uma experiência de escola bilingüe na
fronteira com a Argentina. Segundo o noticiário, Uruguaiana e
Paso de Los Libres, na fronteira gaúcha, e Dionísio Cerqueira e
Bernardo de Irigoyen, na fronteira com Santa Catarina, serão os pólos
pioneiros. O sistema a ser aplicado vai começar com as crianças
da pré-escola e Primeira Série do Ensino Fundamental. Os
professores argentinos e brasileiros continuarão alfabetizando
seus alunos na língua materna, mas atravessarão a fronteira para
ensinar o idioma estrangeiro de forma oral e lúdica aos seus
pequenos vizinhos. Idioma se aprende falando e brincando, a
escrita vem depois. A tese me parece absolutamente correta.
O
plano, segundo informações dadas pelos Ministros da Educação
dos dois países, Tarso Genro e Daniel Filmus, deverá ser
formalizado no dia 4 de março. E o mais importante, servirá de
modelo para experiências futuras em nossas fronteiras com outros
países, inclusive o Paraguai. Como se sabe, os paraguaios têm
duas línguas oficiais, o espanhol e o guarani. Assim, não custa
sonhar que um dia as nossas crianças nascidas na fronteira, além
do espanhol, também vão falar o idioma de Sepé Tiaraju, o
grande esquecido da Marquês do Sapucaí. E graças a esse
verdadeiro intercâmbio cultural, o Brasil será mais irmão de
nossos vizinhos e, em nome do Pai e do Filho, será também
guarani.
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Cesárea,
61
Alcy Cheuiche
Com tantas imagens, tantos rostos, o dela não me sai da
cabeça. Uma pequena fotografia com a identificação: Cesárea,
61. Como ela ficaria feliz em ver sua foto nos jornais, mesmo
revelando a idade, o que não agrada a nenhuma mulher. Seus
ancestrais africanos, depois de muita luta contra a escravatura,
ganhavam a liberdade aos sessenta anos. Mas a Lei dos Sexagenários
foi engolida há muito tempo pelo salário mínimo insuficiente,
pela aposentadoria ilusória, e as Cesáreas continuam a
trabalhar. Até quando? Até que o corpo resista, é a regra
geral.
Que sobrenome teria a Cesárea? Não foi necessário
investigar. Todos que leram a notícia entenderam que se tratava
de uma empregada antiga, de toda a confiança, dessas que não se
encontram mais. Como era o sobrenome da Tia Anastácia? Monteiro
Lobato nunca nos contou. Mas isso não a impedia de cuidar do Sítio
do Picapau Amarelo, de fazer
bolinhos que nos davam água na boca, de transformar um
sabugo no Visconde de Sabugosa, uma boneca de pano na Emília, e
pronunciar palavras de sabedoria popular que equilibravam os
arroubos científicos e aventureiros de Dona Benta, Narizinho e
Pedrinho.
Pelo menos uma pessoa chamava a nossa heroína de Tia Cesárea.
Exatamente aquele sobrinho que a vendeu. A empregada antiga jamais
trairia a confiança de sua patroa, que trabalhava em Brasília,
mas mantinha a casa funcionando em Porto Alegre. Uma intelectual
que dependia da sua empregada doméstica para poder trabalhar em
paz. Para que Cesárea abrisse a porta do apartamento, somente
enganada por alguém de sua própria confiança. E foi o que
aconteceu.
Cesárea abriu a porta e o sobrinho entrou com mais dois
marginais. Bastava ter trancado a tia no banheiro. Mas essa gente
é covarde e só atua sob o efeito de cola de sapateiro, bebida
alcoólica ou outra droga qualquer. Esfaquearam a velha senhora e
levaram alguns aparelhos eletrônicos que não valem a vida de
ninguém. Fugiram deixando a guardiã da casa se esvaindo em
sangue. E quando ela foi socorrida e levada ao Pronto Socorro,
ainda conseguia falar. Mas por vergonha ou lealdade com sua própria
família, não contou que o sobrinho era um dos ladrões.
Cesárea morreu no hospital, o sobrinho foi preso e
confessou tudo. Uma vez elucidado o caso, a fotografia de Cesárea,
como é lógico, desapareceu dos jornais. Foi exatamente nos dias
em que começava o Fórum Social Mundial e todos estávamos muito
ocupados em receber mais de cem mil habitantes do Sítio do
Picapau Amarelo, gente do mundo inteiro que ainda luta pela
Liberdade, Igualdade e Fraternidade. O policiamento foi reforçado
em Porto Alegre e os veranistas reclamaram da ausência de muitos
brigadianos deslocados para a capital. Depois de uma semana de
debates, o Fórum terminou, os idealistas voltaram para seus países
e só ficaram por aqui os sonhadores de plantão.
Nos últimos dias, vi milhares de imagens na televisão,
fotografias em jornais e revistas, mas aquela pequenina foto da
Cesárea não me sai da cabeça. E junto dela uma pergunta para
todos nós. Será que a nossa comunicação, dita social, através
da indução do consumo desvairado não está valorizando mais um
aparelho eletrônico do que uma vida humana? Será que realmente
estão errados os que juram que a paz dos nossos lares só virá
com a justiça social? Responda quem for capaz.
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As paredes
das cavernas
Alcy Cheuiche
Quando
Pablo Picasso visitou a gruta de Lascaux, na França, chef d’oeuvre
da pintura rupestre, escreveu uma mensagem para a posteridade:
Afinal, encontrei meu mestre.
Realmente,
através da pintura, foi ali que a arte gráfica nasceu das mãos
dos homens e mulheres de Cro-Magnon. Arte porque transmite emoção
e beleza. Gráfica porque é ancestral da nossa escrita. Incapazes
de uma comunicação oral que narrasse seus feitos de caça, eles
misturaram as primeiras tintas e as aplicaram com os dedos sobre o
suporte que os rodeava, a pedra bruta.
Curioso
que chamemos hoje de “digital” uma das mais modernas técnicas
da indústria gráfica. Dígitos são os nossos dedos, os mesmos
de ontem e de hoje. Ansiosos para criar e transmitir aos outros as
nossas obras de arte. O Egito guarda os melhores exemplos dessa ânsia
de sobrevivência através da comunicação gráfica. Graças a
Champollion, podemos ler como escrita cursiva os caracteres
gravados nos túmulos e nas paredes dos templos. São histórias
do cotidiano no tempo dos faraós, que inspiraram escritores como
Mika Waltari a dar-lhes uma nova vida através dos livros.
Seria
injusto contar um pouco da história da indústria gráfica, sem
falar no produto que substituiu o papiro e o pergaminho. Foi
observando como os marimbondos construíam suas casas com serragem
e saliva, que um carpinteiro chinês inventou o papel. Era no
primeiro século da era cristã e somente seiscentos anos depois,
através dos árabes, que o maravilhoso invento tornou-se a base sólida
para a comunicação escrita. Um dos primeiros livros escritos em
papel foi “As mil e uma noites”, coletânea de estórias
populares, precursora das obras modernas de ficção.
Tenho
na minha biblioteca um pequeno tesouro. Um livro não maior que a
unha do polegar. Comprei-o como suvenir de uma visita a outro
templo da arte gráfica. Um recanto tranqüilo da Alemanha, onde
Gutenberg fez funcionar a primeira impressora sob o olhar incrédulo
do mundo.
Muitos
falam na importância dos enciclopedistas na propaganda da Revolução
Francesa. Mas é preciso explicar que o povo semi-analfabeto do século
XVIII teve recusada pela monarquia a possibilidade de adquirir
conhecimentos através dessas
primeiras coletâneas da sabedoria universal. Por que
proibir a primeira enciclopédia? Porque o povo descobriria que a
chave da sua liberdade está no saber. E depois iria exigir mais.
Quem sabe a igualdade de direitos e a fraternidade universal.
As
palavras impressas venceram a luta contra o absolutismo. O mundo
gráfico é a maior conquista da democracia. Ainda se proíbem e
queimam livros, mas cada vez em menores proporções. Além disso,
a indústria e o comércio, através das agências de propaganda,
sofisticaram as exigências visuais dos consumidores. Dos ingênuos
“reclames” oferecidos aos nossos avós, chegamos a verdadeiras
obras de arte nas embalagens, nos out-doors, nas páginas
de revistas e jornais. Tudo passa pela arte gráfica. Desde o selo
da vitória brasileira na Copa do Mundo, até o papel que valoriza
o presente do nosso aniversário.
Aliás, neste momento, todos os que gostamos de livros
estamos de aniversário. Mas não podemos esquecer, nas comemorações
do cinqüentenário da FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE, que ela é,
acima de tudo, uma obra gráfica. E que, sem a indústria gráfica,
nesta e em outras latitudes, ainda estaríamos aplicando tinta com
nossos dedos nas paredes das cavernas.
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Café
frio
Alcy Cheuiche*
No
tempo que o Rio de Janeiro era a capital do Brasil, contava-se a
seguinte estória.
Dois
leões fugiram do zoológico da Quinta da Boa Vista e
desapareceram. Durante dias os cariocas não mudavam de assunto.
Onde se esconderam as feras? A qualquer momento podem devorar alguém
e essa polícia incompetente não faz nada. Os bombeiros deixavam
casas queimando para atenderem chamados sobre os leões. Todas
pistas falsas. Somente um leão velho de circo foi preso para
reconhecimento.
A
população vivia em pânico, até que um dia os dois fugitivos
foram capturados. Mas o interessante é que um deles estava gordo
e o outro magérrimo. O que teria acontecido? De volta ao zoológico,
a mesma pergunta os leões fizeram um para o outro. E o magro
contou suas aventuras.
Logo
que nos separamos, embrenhei-me na Floresta da Tijuca. Foi o meu
grande erro. Nem uma simples lebre para comer. Passei dias corrido
pela cachorrada, até que me pegaram. Te juro que não fujo mais.
Daqui não saio. Daqui ninguém me tira. E tu? Como conseguiste
comer?
O
gordo lambeu os bigodes e sorriu, sacudindo o rabo. Muito simples.
Naquela primeira noite fugi na direção do centro e me escondi no
prédio de um ministério. Todos os dias eu comia um funcionário
e ninguém dava falta. Até que cometi a burrice de comer o homem
que servia o cafezinho. Procuraram por ele em todos os cantos e me
acharam.
Lembro
desta estória quando as eleições terminaram na maioria das
cidades do Brasil e vamos esperar três meses pela posse dos
eleitos. E até dos reeleitos. Logo depois da vitória, o prefeito
do Rio de Janeiro, César Maia, foi recebido em triunfo pelos seus
funcionários. Para que esperar até janeiro? Deveria ter tomado
posse naquela hora, aproveitando que todos tinham ido trabalhar.
Na
França, até o Presidente da República toma posse logo depois
das eleições, creio que no máximo em quinze dias. Quem se elege
deve ter pronto seu plano de governo e escolhidos seus assessores.
Deixar o antecessor mais três meses no poder, inclusive com a
responsabilidade de aprovar o orçamento do ano seguinte, me
parece irracional.
Mas
o pior são os prefeitos que não se reelegeram. Vão passar os próximos
meses governando numa quase ilegitimidade. Loucos para cair fora,
serão olhados com desprezo pelos CCs que vão ficar desempregados
e com desconfiança pelo povo. Que tramóia eles vão fazer nesses
últimos meses de “mamata”? É a hora que pedem o cafezinho e
o garçom não vem. E quando vem, serve o café frio.
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MOZART
PEREIRA SOARES, O MESTRE
Alcy Cheuiche
O
mestre vai fazer noventa anos. Recolhido ao seu sítio de Palmeira
das Missões, convive agora somente com alguns familiares e
amigos. No início deste ano perdeu sua esposa Tereca, um golpe
forte para quem sempre foi feliz no casamento. Graças ao sobrinho
Oli, que mudou-se para junto do tio, Mozart Pereira Soares está
bem cuidado. Mas nós,
seus amigos que vivemos longe, sentimos a falta da sua presença.
Porque o mestre é único. Um ser humano muito difícil de clonar.
Conheci
o Professor Mozart em Porto Alegre, na antiga Faculdade de
Medicina da UFRGS, hoje um prédio abandonado na frente da
Faculdade de Direito (que ele iria cursar depois de aposentado,
diplomando-se advogado com 71 anos). Eu cursava Medicina Veterinária,
mas a Cadeira de Fisiologia era comum para as ciências médicas.
Ali, o Prêmio Nobel de Fisiologia, Bernard Hussai, deixara sua
marca no aluno predileto. Primeiro argentino a receber uma tal
honraria, ele recebera o
jovem Mozart em Buenos Aires, para um Curso de Aperfeiçoamento,
em 1949. Nada melhor para expandir os conhecimentos de nós todos,
seus futuros alunos, do que uma tal parceria. Não é de
estranhar, portanto, que Mozart Pereira Soares, como veterinário,
tenha sido o primeiro Professor de Fisiologia da Faculdade de
Medicina de Santa Maria.
Nesse
particular, vale a pena contar uma boa história. Indicado pelo Prêmio
Nobel ao Reitor Mariano da Rocha, Mozart Pereira Soares aceitou
lecionar Fisiologia para os futuros médicos. Mas, ignorantes do
seu vasto saber, alguns alunos resolveram boicotar o novo
professor. Consideraram como desprezo receberem aulas de
um veterinário, fossem quais fossem os títulos que
tivesse. Assim, a combinação era faltarem todos a sua primeira
aula, marcada para uma terça-feira. Acontece que, na véspera, na
segunda-feira, deveria chegar à Santa Maria o Ministro da Saúde
para proferir conferência e receber o título de Doutor Honoris
Causa. O homenageado ficaria poucas horas na cidade e por isso
iria diretamente do aeroporto para o salão de atos cumprir seu
programa. O Reitor e demais autoridades foram recepcioná-lo,
enquanto o auditório ia ficando repleto de convidados, na maioria
professores e alunos da Universidade. Mas, por falta de teto, o
avião não conseguiu aterrissar e Mariano da Rocha, muito
decepcionado, foi até ao salão nobre comunicar o cancelamento do
programa. Ao chegar, a primeira pessoa que encontrou foi Mozart
Pereira Soares. Disse-lhe o que acontecera e acrescentou: é uma lástima
convocar toda a Universidade para nada. Ao que Mozart retrucou:
qual é o tema da conferência que o Ministro iria fazer, Dr.
Mariano? O papel da medicina no mundo moderno. Pois então, se o
senhor quiser, eu faço a conferência. E assim, de improviso,
subiu à cátedra e falou durante uma hora e meia, sendo aplaudido
de pé por toda a assistência. No outro dia, é claro, os alunos
de medicina estavam todos lá para assistirem a sua primeira aula.
E até hoje muitos médicos famosos recordam com saudade daquele
grande professor.
Além
do sucesso como professor universitário, Mozart é historiador,
romancista e poeta. Membro da Estância da Poesia crioula, e seu
Presidente em um dos momentos áureos da nossa academia chucra,
seu livro “Erva Cancheada” é obra definitiva da poesia
regional. Com ele revelou ao Brasil a vida e o folclore dos
ervateiros, além de abordar temas universais, em linguagem gaúcha,
como nos poemas “Flete Negro” e “Senha”, entre outros. Seu
primeiro romance, “A pastoral missioneira” recebeu em 1972 o
Prêmio Ilha de Laytano, o mais importante da época. Ali, o
mestre nos conta a sua infância campesina, como quem a fosse
pintando com aquarela. Os pais, muito pobres, retirando da terra a
sua sobrevivência. A avó Eliza, com suas histórias do tempo dos
jesuítas, o galho de arruda atrás da orelha e o relho para
castigar os guaipecas sempre ao alcance da mão. Todo o meio que o
cerca, quando abriu os olhos para o mundo, ganha vida e mexe com
as nossas emoções: o rancho dos avós onde nasceu e a casinha
modesta dos pais, os utensílios da vida diária, os bichos, as árvores,
a sanga com seus lambaris, as primeiras artes e o castigo certo
pelas mãos do pai. Tudo é real, puro, emocionante, como no
primeiro livro de infância de Marcel Pagnol, o grande escritor
francês, e talvez até melhor.
Sem
nunca deixar de ser um mestre das ciências médicas e rurais,
tendo sido Presidente da Sociedade de Veterinária do Rio Grande
do Sul, Diretor da Faculdade de Agronomia e Veterinária,
Professor Emérito, Decano do Conselho Universitário e,
nessa condição, Reitor da UFRGS, o Professor Mozart, como os
gregos do século de Péricles, tornou-se um homem de cultura
universal, tanto científica, como humanística. Assim, quando o
atual Vice-Governador do Estado, escritor Antonio Hohlfeld,
garimpou sua obra e revelou-a por inteiro ao Brasil, o titulo que
escolheu foi significativo: “Saber universitário com gosto
campeiro”. Uma grande definição da vida e obra de um homem
fora do comum.
Na
literatura, com mais vinte livros que se seguiram aos acima
citados, Mozart Pereira Soares conquistou um público cativo e
elegeu-se membro da Academia Rio-Grandense de Letras e do
Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul.
Conseguindo popularidade a ponto de ser entrevistado no famoso
programa do Jô Soares, provou que a erudição é respeitada em
todos os segmentos da sociedade, desde que sirva para o aperfeiçoamento
do povo. E para isso, é preciso aliar um profundo conhecimento de
todos os assuntos que trata, com o prazer de ensinar, de iluminar
as mentes de seus alunos e leitores, qualidade rara que permite
que nós o chamemos de mestre.
Há
poucos dias, Maria Berenice, minha mulher, e eu, fomos visitar o
velho Professor em seu refúgio. Levávamos, de parte do
Presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária, Dr.
Eduardo de Bastos Santos, uma estatueta que recebi em seu nome em
solenidade realizada em Porto Alegre. Mais uma vez nossa classe
profissional o homenageara como “Destaque Cultural do Ano”. Um
nova honraria a ser colocada ao lado da Medalha Assis Brasil, da
Medalha Simões Lopes Neto, da Medalha Negrinho do Pastoreio, e
tantas outras que valorizaram aquele que muitos consideram o homem
mais culto do Rio Grande do Sul. Mas esta tem um sabor especial. O
sabor campeiro de ser oriunda de seus colegas veterinários,
exatamente no momento em que o mestre deixou o palco e recolheu-se
às suas raízes.
Ao
entardecer, conversando com ele diante da casa do sítio, com uma
linda paisagem de mata preservada e coxilhas verdes, ergueu-se em
vôo rasante um quero-quero. Para provocar sua memória,
perguntei:
–
Como é o nome científico do quero-quero, Mestre?
Sem titubear, ele respondeu:
–
Bellopterus
chilensis lampronatus.
E acrescentou:
–
Em tradução livre, o nome vem do latim bellus,
guerra e pterus, asa. Ou seja, o que carrega a arma nas
asas.
E
me veio à mente o final do poema de Glaucus Saraiva “A lenda do
quero-quero”, recordando essa característica da nossa ave
sentinela:
"Voará
com a esperança,
guardando a ponta de lança
a gaúcha tradição”.
Podemos
todos ficar tranqüilos. Mesmo em avançada idade, quase só em
seu exílio voluntário, o mestre continua possuidor de uma mente
clara e poderosa. E podemos seguir aprendendo com ele. Graças a
Deus.
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O ônibus
fluvial
Alcy
Cheuiche
Da
janela do meu quarto vejo um pedaço do Sena. À direita, a
catedral de Notre Dame é contornada pelo rio. Paris nasceu aqui.
Nesta ilhota chamada pelos romanos de Lutecia Parisiorum,
destinada a ser o coração do mundo.
Nesta
manhã ensolarada, o que mais me impressiona é o movimento de
barcos em ambos os sentidos. São quase dez horas e os bateaux
mouches cheios de turistas dividem as águas com péniches carregadas
de carvão. Quase a minha frente, um ônibus fluvial estaciona em
sua parada. Descem algumas pessoas, sobem outras, e ele prossegue
o trajeto rio acima. Daqui a duas horas, mais ou menos, estará de
volta pela outra margem, a chamada rive droite. Graças a
esse transporte alternativo, além do prazer de navegar nesta
cidade linda, os passageiros aliviam um pouco os trens do metrô e
os ônibus normais.
Em
seu livro “Terra dos homens”, Saint-Exupéry conta a visita de
um árabe do deserto a Paris. Depois de assustar-se com o Sena, o
beduíno parou estarrecido diante de um chafariz e perguntou ao
escritor: para onde vai toda essa água? Desce pelos canos e vai
rio abaixo. E para que serve? Para bonito, para alegrar os olhos
das pessoas. Aí, Saint-Exupéry narra que o árabe caiu em
profunda depressão, pedindo-lhe para voltar o quanto antes ao seu
deserto, onde as gotas d’água valem como diamantes.
Há
muitos anos, escrevi um livro de poemas intitulado “Entre o Sena
e o Guaíba”. Lembro que na apresentação, eu dizia:
No Sena lavou o rosto nossa história universal. Guaíba
é o sangue da terra dourado de pôr-do-sol. Hoje, revoltado
com tanto desperdício de água, eu diria que o Sena é um pedaço
da França em movimento. E que o Guaíba é o retrato do nosso
imobilismo.
Por
que não temos ônibus fluviais em Porto Alegre? Imaginem uma
linha permanente margeando o Guaíba desde o Lami, com paradas na
Ponta Grossa, Ipanema, Pedra Redonda, Tristeza, Assunção,
Cristal, Estádio Beira-Rio, Anfiteatro Pôr-do-Sol, Parque Maurício
Sirotsky, Museu do Gasômetro, Cais do Porto. E dali do monumento
envidraçado, bem na frente da Praça da Alfândega (e da Feira do
Livro), prosseguindo e parando na Estação Rodoviária, Doca Turística,
Canoas. Voltaria pelas ilhas e pelas margens do Jacuí, servindo
aos que residem em permanência e possibilitando a muitos
moradores de fim-de-semana fixarem-se definitivamente em lugares
mais aprazíveis.
Isso
sem falar no famoso transporte fluvial entre Porto Alegre e Guaíba,
aliviando a carga dos ônibus comuns, o bolso dos passageiros e
ainda levando turistas para visitarem o cipreste histórico e a
casa onde viveu Gomes Jardim e morreu Bento Gonçalves.
É por
essas idéias e outras que chamam os poetas de sonhadores. Mesmo
os que sonham de olhos abertos, enxergando os ônibus fluviais de
Paris, como eu. Da mesma maneira que vi os bondes da Alemanha,
silenciosos, baratos e confortáveis. E pensei nos bondes de Porto
Alegre, arrancados das nossas ruas pelo “bem do progresso”. Ou
pelo bem do bolso de alguns?
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French
Fries
Alcy Cheuiche
Um dos grandes orgulhos dos americanos é que
a data nacional deles é anterior ao 14 de julho. E não somente
por imposição do calendário. Em verdade, a Independência dos
Estados Unidos data de 1776 e a Revolução Francesa de 1789. O
maior traço de união entre ambas foi o Marquês de La Fayette,
jovem liberal monarquista que lutou contra os ingleses ao lado dos
revolucionários americanos. Devolver-lhe o favor foi a desculpa
romântica invocada pelos Estados Unidos para participar, ao lado
da França, do final da Primeira Guerra Mundial. Já na Segunda
Guerra, os franceses ficaram realmente devedores dos Estados
Unidos, principalmente na libertação de Paris. Ernest Hemingway
narra como testemunha esse episódio, afirmando que, dali em
diante, americanos e francesas juraram amor eterno.
É preciso reconhecer, no entanto, que as francesas mais
apreciadas nos Estados Unidos são as batatas fritas. Chamadas de French
Fries, são consumida de costa a costa com igual voracidade.
Depois da recusa da França em invadir o Iraque sob as ordens de Mister
Bush, alguns restaurantes ultra-nacionalistas tentaram eliminar
esse nome, mas a moda não pegou. Como também foram poucos os
americanos que esvaziaram garrafas de vinho francês na sarjeta.
Esse sim, um verdadeiro ato terrorista.
Em verdade, nem a batata frita é francesa e nem a Bastilha
era uma prisão importante em 1789. Os belgas juram que foram eles
os inventores, sendo contestados pelos peruanos e bolivianos, de
cujas terras a batata foi levada para a Europa pelos espanhóis.
Mas logo ganhou o nome de batata inglesa, embora seja adorada
pelos teutônicos, menos na hora em que algum é chamado de alemão
batata. Uma verdadeira salada histórica.
Quanto à Bastilha, construída 400 anos antes de sua destruição,
é certo que foi durante muito tempo uma prisão inexpugnável.
Ali estiveram presos muitos inimigos do Rei, sendo os mais famosos
o Máscara de Ferro ( que existiu mesmo) e François Marie Arouet,
mais conhecido como Voltaire, que só não morreu por lá graças
à sua amizade com o Rei da Prússia. Mas o certo é que, em 14 de
julho de 1789, não restavam na Bastilha mais do que uns vinte
prisioneiros de pouca importância. A fortaleza, arruinada e mal
defendida, foi tomada facilmente pelo povo. Essa, a versão histórica.
Mas a versão mais bonita é a dos velhos filmes americanos, em
que o povo toma a Bastilha depois de uma luta tremenda, cantando
em altos brados a Marselhesa, hino que ainda não fora composto.
Brincadeiras à parte, comemorar o 14 de julho, gostando ou
não dos franceses, é obrigação de todos os republicanos e
democratas, nos Estados Unidos e em qualquer parte do mundo. Foi o
dia em que o povo deu o primeiro passo na luta pela liberdade. Uma
longa marcha que nos livrou da monarquia absolutista e ainda nos
levará à igualdade e à fraternidade humanas, mesmo que
demoremos alguns séculos mais para conquistá-las.
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Livros em Gramado
Alcy Cheuiche 04/07/2003
Os primeiros
veranistas chegaram em Gramado com o trem de ferro, em 1920. O nome que
lhes davam era correto, pois só iam mesmo no verão. Tanto é verdade que,
vinte anos mais tarde, quando Torres entrou na moda, eles abandonaram a
serra e foram bronzear-se a beira-mar. Foi o caos, como nos conta Romeo
Riegel, um dos melhores cronistas da região. Os hotéis fecharam e a
pobreza chegou na região das hortências. Hortências! Foi isso
mesmo. Graças à primeira Festa das Hortências, realizada em 1958, Gramado
escapou do marasmo e começou a receber turistas, matéria prima humana mais
atraente que os veranistas. Inspirada na Festa da Uva de Caxias do Sul, a
nova festa abarrotou a cidade de gente, obrigando o Prefeito Walter
Bertolucci a pedir auxílio às casas particulares, dada a pobreza da
hotelaria. Mas hotéis podem ser construídos com relativa rapidez. O que
Gramado oferecia à sensibilidades de todos era sua natureza preservada até
no centro da cidade e sua floresta de araucárias plantadas deste muitos
anos por A.J. Renner, um pioneiro da ecologia naquela
região.
Menos de
cinqüenta anos depois da chegada dos primeiros turistas, Gramado é uma
festa permanente de festivais, congressos, encontros oficiais e amorosos.
Seus hotéis e pousadas fazem inveja a Bariloche. Seus restaurantes
satisfazem os paladares mais requintados e não doem tanto no bolso como em
outras cidades turísticas brasileiras. E se você estiver desprevenido de
reais, basta procurar os restaurantes mais simples, verdadeiros genéricos
da culinária brasileira e italiana, onde
encontrará comida gostosa e barata.
Em
agosto, o mundo do Cinema se reúne em Gramado e em dezembro é aquela
apoteose do Natal Luz. Isso sem falar na Chocofest e no Teatro de Bonecos
de Canela, cidade gêmea que também comemora o Natal despejando um punhado
de Papais Noéis lá de cima da torre da sua igreja matriz.
Bem, há tanto o que elogiar por aqui que deixei para o fim o mais
importante, a Feira do Livro de Gramado, que ocupa a Rua
Coberta até o dia 13 de julho. São dez mil livros a disposição dos
turistas, disputando espaço nas sacolas sempre cheias de souvenirs. Aqui na serra, os
livros tem cheiro de flores, gosto de chocolate e bouquet de vinho tinto. Sem
esquecer o chimarrão que é servido na frente do refúgio dos escritores
(também local dos autógrafos) das 10 da manhã às 7 da noite. Atrações
culturais e artísticas ocupam o palco da feira e os locais reservados para
a contação de estórias e outras atividades lúdicas. Mágicos, dançarinos,
conferencistas, cantores, músicos, dividem espaço com escritores
convidados e espontâneos, vindos de todos os pontos cardeais. Tudo isso
organizado nos mínimos detalhes pela equipe cultural da Prefeitura,
competente, atenciosa e feliz.
Embora
suspeito, por ser o patrono da 7a Feira do Livro de Gramado, já
mandei um recado pelo Lasier Martins ao Ruy Carlos Ostermann: Porto Alegre
que se cuide. Embora ainda criança, esta aqui vai ser muito em breve uma
das melhores Feiras do Livro do Brasil.
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Grenal
é Grenal Alcy
Cheuiche
O fato
aconteceu num cartório de Porto Alegre. Um casal veio registrar o filho e
criou-se um impasse com o funcionário resmungão. Com esse nome eu não
registro o menino. E por que não? Por que Grenal nunca foi nome de gente.
Como não é nome de gente se é uma mistura do nome da minha mulher Gretchen
e do meu nome, Juvenal? Essa história o senhor inventou para me enrolar,
eu conheço muito bem o senhor e sei que é colorado doente. E daí? Eu sou
pelo-duro e colorado, a minha mulher é alemoa e gremista e nos damos muito
bem. Se dão bem até o dia em que botarem o nome de Grenal na pobre
criança. E por que nós vamos brigar por causa do Grenal? Porque Grenal não
é nome, Grenal é jogo de futebol, Grenal é sinônimo de briga, de
discussão, pobre da criança. Pois eu acho que Grenal é sinônimo de garra,
de valentia e, além do mais, o senhor já registrou um guri com nome de
jogo de futebol. Que guri foi esse? O Caju, filho do Cacildo e da Juvelina. Não gostei do nome, mas caju é nome de fruta e fruta pode
registrar, até o Duque de Caxias tinha o nome de Lima. Caxias, não é?
Pensa que eu não sei que o Cacildo e a Juvelina são de Caxias do Sul? E
daí? Daí que Caju é o Grenal de lá, o jogo do Caxias com o Juventude, vai
me dizer que o senhor não sabia? Eu não entendo nada de futebol. Mas de
Grenal o senhor entende. Claro que entendo, Grenal é Grenal.
Como uma
fábula, esta historinha nos revela uma característica fundamental dos
gaúchos. Nós aqui não gostamos de ficar de fora da briga, detestamos o
banco de reservas. Farroupilhas e caramurus, maragatos e pica-paus,
chimangos e maragatos, sempre nos dividimos em duas facções
irreconciliáveis. Virar a casaca? Mudar de partido político? Trocar de
clube de futebol? Aqui não, meu amigo. Aqui, nós sempre escolhemos o nosso
lado. Querem um exemplo? Nessa prévia do PT, até os inimigos políticos
estão torcendo, não venham me dizer que não. E mesmo em completo silêncio,
todos os gaúchos, inclusive o Brisola e o Simon, sabem em quem votariam se
pudessem votar.
Como
Grenal é Grenal e esta frase foi criada por um político, o ex-Governador
Ildo Meneghetti, eu também não vou ficar em cima do muro. Não tenho nada
contra o Olívio, mas acho que o Tarso, se vencer a prévia e o Gauchão,
terá tudo, daqui há quatro anos, para
ganhar o Campeonato Brasileiro. E o nosso grande problema não está aqui.
Governador nós temos, o que nos falta é um verdadeiro Presidente da
República.
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Nos céus de Paris Alcy Cheuiche
02/01/2003
Enquanto milhares de bombas estão sendo jogadas nos céus de Bagdá,
poderia parecer um diletantismo voltar à polêmica sobre o primeiro vôo nos
céus de Paris. Acontece que o assunto foi abordado (e muito bem, por
sinal) pelo suplemento Eureka (ZH, 31 de março) e é preciso bater no ferro
antes que esfrie. E que deixe na cabeça de muitos leitores a impressão de
que o Brasil estaria errado em relação ao pioneirismo de Santos
Dumont.
Na instigante matéria de Marcello Gonzato, Nick Engler, diretor da
Wright Brothers Aeroplane Company, aconselha a nós brasileiros a deixarmos
de ser emocionais, ufanistas, e comemorarmos com os norte-americanos o
centenário do vôo dos Irmãos Wright que teria acontecido em 17 de dezembro
de 1903. “Superem isso, voamos primeiro”, é o conselho que ele nos dá,
numa frase emocional e ufanista. Como exemplo, cita que eles também
gostariam de ter enviado o primeiro homem ao espaço, mas não
choramingam (grifo nosso) porque Yuri Gagarin realizou a façanha
antes deles.
Como se diz no centro do país, a conversa é para mais de metro, mas
este espaço, embora pequeno, é um dos melhores que temos para dar nossa
opinião.
Assim sendo, vamos deixar claro que o vôo de 1903 de Wilbur e
Orville Wright só começou a ser comemorado nos Estados Unidos muitos anos
depois, exatamente em 1908, quando os americanos realizaram essa façanha
também nos céus de Paris. Ou seja, o mundo só aceitou que o Flyer
voava, dois anos depois que o 14 Bis realizara essa façanha diante de
centenas de pessoas, com documentação fotográfica e até cinematográfica, em outubro e
novembro de
1906.
Ora, como todos sabem, existe nos arquivos do Exército Francês, em Paris,
uma carta de novembro de 1906 enviada por Orville Wright ao Capitão Farber
solicitando todas as informações possíveis sobre o avião de Santos
Dumont, o que não foi
difícil de obter, uma vez que
o nosso pioneiro liberava todos os detalhes de seus inventos para a
imprensa. O Capitão Farber conhecia os Irmãos Wright de uma visita que
fizera aos Estados Unidos para conhecer o Flyer. Na ocasião,
embora quisessem vender o invento ao Exército Francês, os irmãos
fabricantes de bicicletas se recusaram a fazer uma demonstração de vôo.
Aliás, no tal vôo pioneiro de 1903, as únicas testemunhas são eles mesmos.
Como a nossa Conceição, “se subiu, ninguém sabe, ninguém viu”.
Em 1909, Santos Dumont recebeu apoio da imprensa francesa para
defender-se de uma campanha iniciada pela diplomacia americana a favor dos
Irmãos Wright. Sua resposta foi a seguinte. O 14 Bis e o Flyer são
simples caricaturas do verdadeiro avião que estou oferecendo ao mundo. E
tirou a capa de cima do Demoiselle para mostrá-lo aos jornalistas.
Foi esse o avião que serviu gratuitamente de modelo para a indústria
aeronáutica do Estados Unidos, como até o Sr. Engler reconhece. Sob esse
ponto de vista, o pioneirismo
de Santos Dumont passa a valer não uma, mas duas vezes.
Por aqui, senhor Nick Engler, ninguém choraminga diante da verdade.
Apenas oferecemos provas que o senhor não possui. E como Deus não joga mas
fiscaliza, o americano Neil Armstrong pisou na lua (fato que não
duvidamos) exatamente no dia 20 de julho, aniversário de Santos
Dumont.
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A
Paz do Ponche Verde
Alcy Cheuiche
Foi no dia 28 de
fevereiro de 1845. De seu acampamento, nos campos de Ponche Verde, Davi
Canabarro proclamou aos farroupilhas a conclusão da paz e o reingresso do
Rio Grande do Sul na comunhão brasileira.
Com essas
palavras singelas, o saudoso amigo Arthur Ferreira Filho, em seu livro
“História Geral do Rio Grande do Sul”, relata o essencial daquele dia
histórico. Mas a desconfiança ainda era tamanha que o Barão de Caxias, no
entanto um valente, fez o mesmo anúncio aos caramurus em outro local, às
margens do rio Santa Maria. E depois deslocou-se para Bagé, fortemente
escoltado. Ali, o pároco de São Sebastião propôs-lhe um Te Deum para comemorar a vitória.
Irritado, Caxias respondeu-lhe com brusquidão: Reze um Requiem pelos mortos que eu
estarei na sua igreja com todos meus oficiais. Os que morreram nesta
guerra eram todos irmãos.
A costura final da paz
do Ponche Verde foi feita por dois emissários enviados ao Rio de Janeiro
para levar os termos do acordo ao Imperador. Por parte dos republicanos
foi escolhido o Ministro Antônio Vicente da Fontoura (o mesmo da nossa
conhecida rua de Petrópolis). Representou os imperiais o Coronel Manuel
Marques de Souza, futuro Conde de Porto Alegre (cuja estátua, geralmente
cercada de mendigos, pode ser avistada na Praça do Portão). Juntos, os
dois embaixadores obtiveram o agrément do jovem D. Pedro II (com
apenas 19 anos) que prometeu visitar Porto Alegre ainda em 1845, o que
realmente aconteceu. Nossa capital, onde o sentimento farroupilha costuma
ferver em tantos momentos de exaltação política, recebera o título de Mui leal e valerosa, exatamente
por ter resistido ao cerco dos republicanos e se mantido fiel ao Império.
A palavra valerosa, erro
gráfico de valorosa, consagrada pelo uso, transformou-se no símbolo do
analfabetismo da época. Aliás, uma das primeiras atitudes do governo
farroupilha, ainda em novembro de 1836, foi criar uma escola pública em
Piratini, raridade absoluta na época.
Ironias a parte,
é preciso reconhecer que, na ocasião, os termos da paz do Ponche Verde
foram vantajosos para ambas as partes. Muitos farroupilhas estavam
dispostos a lutar até o fim. Mas a verdade é que esse fim estava muito
próximo. A morte do Coronel Teixeira Nunes, no último combate da guerra, é
uma prova disso. Foi um verdadeiro ataque kamikase para vingar a traição do
Cerro dos Porongos. Teixeira só dispunha de um punhado de homens mal
armados e sabia que iria morrer. Mas causou tantos estragos entre os
imperiais que sua morte serviu para assustar o famigerado Chico Pedro e
apressar a paz.
Passados 158
anos, o local em que foi assinada a paz de Ponche Verde é ainda um rincão
perdido na fronteira do Uruguai. O município de D. Pedrito, carente de
recursos, vem tentando, mas nunca conseguiu transformá-lo num local de
turismo, num ponto de romaria cívica dos gaúchos. A verdade é que, bem no
fundo, nós sabemos o porque desse desprezo. No dia em que foi assinada a
paz do Ponche Verde começou o processo de ostracismo que condenou a metade
sul do Rio Grande à pobreza e ao esquecimento oficial.
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A
pátria e a querência
Alcy Cheuiche
Da minha janela, vejo as bandeiras tremulando no Palácio
Piratini. A verde amarela do Brasil e a do Rio Grande do Sul, com as
mesmas cores, mas entremeada pelo sangue dos farroupilhas. Gosto de ver as
duas juntas. Principalmente nestes dias de setembro em que se encontram os
dois cultos, o da Pátria e o da Querência. Quando os farroupilhas
entraram em Porto Alegre, na manhã ensolarada de 21 de setembro de 1835,
ninguém pensava em separar a Província de São Pedro do Império do Brasil.
Tanto é verdade, que no manifesto publicado a seguir por Bento Gonçalves,
o líder da revolta não fala uma única vez em separatismo. Seu desejo era
derrubar mais um déspota, dos muitos que governaram a província como
sanguessugas. Oitenta e seis por cento da arrecadação de impostos de 1834
seguira diretamente para a Corte, no Rio de Janeiro, e o saldo fora
consumido pela burocracia e pela corrupção. Nosso charque, produto de
exportação, foi taxado tão alto que perdeu o poder de competição com o
similar da Argentina. Não tínhamos escolas, estradas, pontes, nem poder
judiciário. Mas nossos jovens morriam como moscas para defenderem as
fronteiras do Império. E para agravar ainda mais o descontentamento geral,
a Assembléia Legislativa, árdua conquista dos liberais, instalada com
festas em abril de 1835, fora fechada pelo governo conservador,
minoritário nas eleições, em desrespeito à própria Constituição do
Império. E não esqueçam que Bento Gonçalves, além de militar, era deputado
e líder do Partido Liberal. Na mesma manhã de 21 de setembro de 1835,
Fernandes Braga, o Presidente deposto pelos farroupilhas, fugiu pela Lagoa
dos Patos em um barco escoltado por navios portugueses. Treze anos após a
nossa independência, os chamados restauradores ou “caramurus” planejavam a
volta do Brasil ao estado de colônia de Portugal. O futuro Imperador,
D.Pedro II, tinha apenas nove anos e a Regência parecia tentada em “unir
novamente as duas coroas”, eufemismo que significava renegar a
independência. Foi então que a Maçonaria, que mobilizara os líderes da
Independência, passou a planejar levantes republicanos em cada Província,
para unidas formarem a República do Brasil.
Analisado por esse ângulo,
o movimento que eclodiu na Ponte da Azenha, em Porto Alegre, na noite de
20 de setembro de 1835, pode ser comemorado como uma data patriótica, uma
data do Brasil. Todos os liberais brasileiros eram apelidados de
“farroupos”, “farroupilhas”, ou “esfarrapados” desde o levante de 1832, no
Rio de Janeiro, quando tiraram da prisão os companheiros em petição de
miséria. E foi no Rio de Janeiro que surgiu o jornal “A trombeta
farroupilha”, denunciando os impatriotas aliados dos portugueses. Quando
acertou as condições para a paz do Ponche Verde, em 1845, Caxias, que era
católico e maçon, fez tudo para reconciliar os farroupilhas com o Brasil.
Em nenhum momento da História se conhece uma anistia tão ampla, que
concedeu até a alforria aos escravos que tinham lutado com a farda da
nossa República. E talvez por isso eu esteja sorrindo ao olhar as duas
bandeiras tremulando juntas. Não é por acaso que, frente ao símbolo da
primeira capital da Querência gaúcha, o Palácio Piratini, passa a Rua
Duque de Caxias, nossa homenagem
a um dos grandes construtores da Pátria brasileira.
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O
Grande Paulo Autran Alcy Cheuiche
Quem já esteve na gruta de
Lascaux, sabe que foi lá. Aquelas paredes pintadas pelo homem
pré-histórico são verdadeiros cenários de teatro. Bisões e cavalos em
disparada, mas nenhuma figura humana. Para que pintar os atores, se
eles estavam ali, representando dentro da caverna? Picasso extasiou-se
com essas pinturas e disse que finalmente encontrara seus mestres. Pena
que as pedras não guardaram também o eco dos instrumentos musicais
primitivos. E o movimento dos homens de Cro-Magnon narrando seus feitos
de caça e de guerra.
Em todas as escavações arqueológicas de
antigas civilizações, encontram-se vestígios de teatros. Chineses,
egípcios, fenícios, gregos, romanos, cultivaram a arte de representar
desde os mais remotos tempos. A acústica do teatro grego de Epidaurus,
embora ao ar livre, permite que palavras apenas sussurradas cheguem aos
lugares mais distantes do amplo semi-círculo. Desde as miniaturas
chinesas, até os mega-espetáculos do Coliseu Romano, o teatro foi a
representação da própria vida humana. E continua sendo, cada vez que se
veste apenas de talento. Para mim, o teatro nasceu em Alegrete,
com os espetáculos ambulantes de Procópio Ferreira. Até hoje recordo de
algumas cenas do "Avarento" de Molière que assisti aos oito anos de
idade. Aos dezoito, vim estudar em Porto Alegre e descobri o Theatro
São Pedro. E dentro dele, Shakespeare e Paulo Autran. Essa primeira
experiência repetiu-se muitas vezes, aqui e em outros teatros do
Brasil. E nenhum outro ator impressionou-me mais do que ele. Nem os
mais famosos que tive diante de mim quando vivi na França e
na Alemanha.
Agora, aqui está o grande Paulo Autran na pele dura de um escritor
isolado do mundo. Um papel que ele mesmo escolheu para as comemorações
do seu aniversário. Tradutor das falas originalmente escritas em
francês, acredito que até melhorou o texto de Eric Emmanuel Schmitt. E
seu desempenho é infinitamente melhor do que o de Alain Delon, na
versão de estréia apresentada em Paris. Cecil Thirè o acompanha como
fiel escudeiro, com luz própria, mas sempre iluminado pelo mestre.
Porque Paulo Autran não apenas representa aquele escritor de talento,
aquele ser humano frustrado por uma única paixão. Paulo Autran é o
escritor Abel Zorko, em todos os momentos, em todas as falas. E quanto
suas últimas palavras se despedem de nós, ficamos alguns segundos
indecisos, querendo ainda mais, muito mais. Até que nos erguemos em
uníssono para aplaudir de pé. O que vou dizer agora é uma
verdade que todos sabemos, mas que não custa repetir. Paulo Autran
continua evoluindo aos oitenta anos de idade. Embora, desde muito
jovem, já tenha atingido a perfeição.
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A
Batalha do Riachuelo Alcy
Cheuiche
Foi
no dia 11 de junho de 1865. Um lindo dia de sol. Na confluência dos rios
Paraná e Paraguai, as águas corriam serenas em direção ao mar de Solis.
Era domingo da Santíssima Trindade. Os sinos chamavam os fiéis para a
missa. Tudo calmo a bordo dos navios brasileiros. Nada na paisagem
tranqüila indicava a proximidade da batalha. Mas no tombadilho da nau
capitânea, a Fragata Amazonas, um oficial de barbas brancas não tirava os
olhos do horizonte. Cara de poucos amigos, ele sempre tinha, esse
comandante Francisco Manoel Barroso da Silva. Um chefe brusco, de poucas
palavras, que não inspirava a mínima simpatia a seus comandados. Mil e
duzentos homens que haviam retomado dos paraguaios a cidadezinha argentina
de Corrientes, estabelecendo o bloqueio fluvial. Era certo que o Marechal
Solano Lopes, que tomara a iniciativa de invadir o Brasil e a Argentina,
não iria aceitar aquela situação. O que não se sabia, é que os paraguaios
tinham preparado uma armadilha a pouca distância dali.
Foi assim. Perto de Corrientes, desaguava no rio Paraná um pequeno
arroio, ou riachinho, que em espanhol se diz riachuelo. Junto dele, em segredo,
os paraguaios tinham colocado 22 canhões e cerca de dois mil soldados
armados com fuzis. E agora, certos de que a batalha seria decidida pela
forças de terra, desciam o rio com nove navios a vapor, entre eles o nosso
"Marquês de Olinda", que fôra apresado em Assunção, antes da declaração de
guerra.
Os navios brasileiros também eram nove e me agrada recordar seus
nomes. Belmonte (terra onde nasceu Cabral), o já citado Amazonas, e os
demais todos com nomes tupis-guaranis: Jequetinhonha, Beberibe, Iguatemi,
Mearim, Araguari, Ipiranga e Parnaíba. E foi do Mearim, às nove horas da
manhã, que foi içado, na linguagem das bandeiras, o sinal de "inimigo à
vista". Logo Barroso transmitiu, no mesmo código, os sinais "preparar para
o combate" e o famoso "o Brasil espera que cada um cumpra o seu
dever".
Deus sabe como (se Deus se mete nessas batalhas), mas naquele dia
os marinheiros do Brasil, atacados por água e por terra, em grande
inferioridade numérica, conseguiram uma esmagadora vitória. O antipático
Barroso ganhou a confiança de seus comandados e entrou para a história,
dando nome a centenas de ruas Almirante Barroso e Barão do Amazonas,
título nobiliárquico que o uniu para sempre à sua nau capitânea. E a
palavra espanhola riachuelo
ganhou as nossas ruas com tal patriotismo, que raras são as cidades que
não lhe guardam o nome.
Hoje, em Porto Alegre, a Rua Riachuelo, entre a Rua da Ladeira e a
Avenida Borges, ostenta uma Biblioteca Pública de primeiro mundo e uma
magnífica coleção de livrarias. Basta vir até aqui, ler de graça na
biblioteca ou comprar um livro, até de segunda mão, para saber mais sobre
o Brasil. Ser patriota não é nenhuma vergonha. O triste é gostar do Big Brother e cantar em inglês sem
entender a letra.
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Farm Bill ou Búfalo Bill? Alcy Cheuiche
Búfalo Bill foi um dos
heróis da minha infância. No Cine Glória de Alegrete, cada índio ou búfalo
que ele matava, era motivo para a maior gritaria das crianças. Ele era
para nós o mocinho e seus adversários os bandidos. E o mocinho sempre
tinha razão. Já adolescente, caiu em minhas mãos um livro que começou a
alterar esses conceitos, “Winnetou”, do alemão Karl May. Ali, a figura do
índio apache ganha outra dimensão e o valor dos búfalos, alimentando os
índios em suas longas migrações, me foi pela primeira vez revelado.
Mais tarde, li uma biografia do Coronel William Cody, o verdadeiro
Búfalo Bill, e descobri que ele levava turistas europeus para o oeste,
pagando caro para matar búfalos e índios pelas janelas dos trens. Depois,
fiquei sabendo que o horroroso hábito de escalpar, de arrancar o couro
cabeludo das vítimas, foi criado pelos mocinhos e não pelos bandidos.
Realmente, foram os invasores das terras dos índios que pagavam por
escalpo, prova material de que o índio tinha sido assassinado. Muitos anos
mais tarde, filmes como “O pequeno grande homem” e “Dança com lobos”
revelaram ao mundo que os próprios norte-americanos já não acreditavam
mais nos seus mocinhos do faroeste. E eu sepultei para sempre o famigerado
Búfalo Bill.
Agora, do mesmo país que nos ensinou a vender o patrimônio público
e abrir a economia à globalização, nos vem uma lei agrícola, chamada Farm
Bill, capaz de arrasar nossas exportações, causando prejuízos de bilhões
de dólares à agricultura brasileira. Nós, que eliminamos até o subsídio do
leite, deixando nossos produtores à mercê de preços irrisórios, assistimos
estupefatos a oficialização de um gigantesco protecionismo que contraria
todas as normas da Organização Mundial do Comércio. Apenas dez por cento
dos produtores agrícolas dos Estados Unidos vão receber em dez anos cerca
de 170 bilhões de dólares de subsídios para enfrentarem deslealmente a
concorrência de países como o Brasil, capazes de produzir melhor do que
eles. Um protecionismo tão descarado que provocou a revolta de jornais
sérios como The New York Times. Mas que nos abre os olhos para a
necessidade de defendermos também com unhas e dentes o que é nosso. E
deixarmos de acreditar em falsos heróis.
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Os
livros estão na Praça Alcy
Cheuiche
A praça é do povo, como o
céu é do condor. Assim falou Castro Alves e quem somos nós para
contestar? A praça é sinônimo
de democracia. Não se paga pedágio para atravessa-la. Não se reserva lugar
nos bancos sob as flores dos jacarandás. Assim, nos próximos dezessete
dias, esqueça os gatunos e tenha apenas cuidado para não tropeçar nos
livros. E fique bem atento, que o seu escritor predileto pode estar a seu
lado. Pronto para autografar um dos quinhentos mil livros que o povo
levará para casa. Tantos assim? Podes crer, amigo, a feira é a paixão do
povo. Como o futebol e o jogo do bicho, sempre vence o desafio da
carestia.
Há quase meio século, na mui leal e valerosa
cidade de Porto Alegre, a antiga Praça da Alfândega é palco da Feira do
Livro. De repente, o encontro anual de umas poucas barraquinhas
transformou-se num acontecimento universal. Imagino o susto do seu
idealizador, Maurício Rosenblatt, aquele que tinha sobrenome de pétala de
rosa, se voltasse hoje ao local dos seus sonhos. É certo que o livro tem a forma de
um tijolo, mas construir uma das maiores feiras do livro do mundo, num
país que lê tão pouco, é um verdadeiro milagre cultural. Vamos
aproveitar-nos disso, amada, sem nenhuma vergonha. Vamos tomar nosso
pileque de literatura. Dizia
o Mario Quintana que o poema é como um gole d’água bebido no escuro. Vamos
fechar os olhos aos nossos pequenos problemas e aos grandes dramas
universais. É hora de saborear tranqüilamente a Feira do Livro. E dar
graças a Deus porque sabemos ler.
Mais um detalhe saboroso. Graças
ao talento de Xico Stockinger e a generosidade dos patrocinadores, Mario
Quintana e Carlos Drummond de Andrade estarão na Praça da Alfândega,
simbolizando no bronze o nosso amor pela poesia. O mineiro e o gaúcho eram
dois tímidos, só se encontraram em vida uma única vez, e vamos expo-los
juntos à visitação pública. Quintana, principalmente, deixou na praça de
Alegrete, a mensagem de que um erro no bronze é um erro eterno. Mas como o
bronze não é eterno, ou pelo menos, não durará tanto como a poesia de
Drummond e de Quintana, vamos contrariar tudo, como é a tradição da Feira
do Livro, e aplaudir de pé a primeira estátua mineirucha do Brasil. Sem esquecer de aplaudir a Câmara
Rio-Grandense do Livro e o patrono da feira, nosso querido poeta Armindo
Trevisan.
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