CRÔNICAS


Crônicas
Idéias não são metais que se fundem
Adeus a um homem bom
O Batalhão Sagrado
Pitangas na Feira
Jornal Nacional nas Missões Guaranis: entre tapas e beijos
Sepé Tiaraju símbolo da nação guarani
Hablando Espanhol, Português e Guarani
Cesárea, 61
As paredes das cavernas
Café frio
Mozart Pereira Soares, O Mestre
O ônibus fluvial
French Fries
Livros em Gramado
Grenal é Grenal
Nos céus de Paris
A Paz do Poche Verde
A pátria e a querência
O Grande Paulo Autran
A Batalha do Riachuelo
Farm Bill ou Búfalo Bill?
Os livros estão na Praça

Idéias não são metais que se fundem
Alcy Cheuiche*

Discute-te sobre o deslocamento dos restos mortais de Gaspar Silveira Martins de Bagé para a cidade gaúcha que recebeu seu nome. Não em definitivo, é claro, que isso os bageenses jamais tolerariam. Mas assim como um “passeio histórico” para honrar o grande político brasileiro em data de importância para a comuna de Silveira Martins.

            Não vou entrar na polêmica sobre a conveniência ou não de mexer com os despojos do líder federalista. Mas fiquei fascinado com a oportunidade que o fato nos dá de recordar seus feitos e, principalmente, suas idéias. Pois isso, acima de tudo, define sua biografia. Um pregador de idéias. Uma mente poderosa a serviço da liberdade e da democracia.

Silveira Martins foi o líder intelectual da Revolução Federalista de 1893 que enfrentou a ditadura de Julio de Castilhos, legalizada pela Constituição de 1891, escrita pelo próprio Castilhos. Isto é, legalmente, o poder executivo tinha poderes ditatoriais. Mas nem sempre o que é legal é justo. E foi em busca da justiça que Silveira Martins, Joca Tavares, Gumercindo Saraiva e tantos outros líderes rio-grandenses lutaram contra a deturpação do regime republicano.

            A República nasceu no mundo, todos sabemos, sob a égide do lema “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. Assim, se não há liberdade de eleger seus dirigentes, se não há liberdade de criticá-los nos bares, nos lares, nos  parlamentos, na imprensa, mesmo se essas críticas forem injustas, não há regime republicano. Numa república, existem mecanismos para defender o cidadão contra o estado e o estado contra o cidadão.   Para os reis absolutistas, vale sempre lembrar, qualquer crítica era uma ofensa lesa majestade, qualquer opositor um candidato à prisão ou à morte. L’état c’est moi, disse Luís XIV, quando um ministro alertou-o de que suas ordens contrariavam as leis do estado, as leis da França. Com essa frase, esgotou a possibilidade de uma monarquia democrática no seu país, como existe hoje na Espanha, por exemplo, e incentivou a revolta que iria mais tarde derrubar a bastilha e guilhotinar Luís XVI.

            Chegando legalmente ao poder na Venezuela, mas depois de uma tentativa de golpe militar, Hugo Chaves está seguindo a risca a cartilha para transformar-se de presidente em ditador. Começou governando com um parlamento livre e agora governa por decreto. Foi eleito com liberdade de imprensa e agora não aceita a mínima crítica ao seu governo. Qual é a ideologia do nosso Presidente que o chama de democrata e companheiro, discursa como se ainda fosse um líder operário, mas propicia aos bancos os maiores lucros da história do Brasil? Qual a ideologia de quem tenta fundir em seu governo as idéias antagônicas e muitas vezes oportunistas de onze partidos políticos?

            Idéias não são metais que se fundem, disse Gaspar da Silveira Martins. Porque, segundo ele, só se fundem nas caldeiras da ditadura e da corrupção.

       * Escritor, membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

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Adeus a um homem bom
 Alcy Cheuiche*

             Foi à missa, tomou café normalmente e depois morreu. Tranqüilo e sereno seguiu no rumo do céu.

            Assim se poderia deixar em duas frases nosso adeus a um homem bom. Um homem que nos recorda, no apogeu de tantos homens maus, os versos de Bilac para a língua portuguesa: ouro nativo que da ganga impura, a bruta mina entre os cascalhos vela.

            Perdemos o Irmão Elvo Clemente na manhã de 19 de setembro de 2007 e o estamos enterrando hoje, no dia do gaúcho, no cemitério do Centro Educacional Marista de Viamão, cidade que os farroupilhas chamavam de Setembrina. Vai descansar na mesma terra em que morreu o grande amigo de Garibaldi, Luigi Rossetti, outro intelectual e jornalista italiano que escolheu o Rio Grande do Sul como querência.

            Nascido em Maróstica, Itália, em 1921, seu nome do registro civil era Antônio João Silvestre Mottin. Mas adotou junto com o Brasil o nome de irmão marista e com ele ganhou enorme respeito e carinho de seus contemporâneos.

            O Irmão Elvo Clemente foi um homem de muitos amores. O maior deles, sem nenhuma dúvida, a religião católica, o culto a Nossa Senhora, na tranqüilidade de sua maravilhosa fé. Despido de qualquer sectarismo, convivia com crentes e descrentes com a mesma ternura. Depois da religião, e junto com ela, a literatura foi outra grande paixão. Doutor em Letras Clássicas e professor titular da Faculdade de Letras da PUCRS, deixou sua marca em milhares de alunos, em centenas de artigos, em dezenas de livros. Convivia com os autores clássicos como se os houvesse conhecido pessoalmente, emocionando-se ao citar trechos de antigos pensamentos, de velhos poemas. Estimulava os autores jovens e não disputava espaço cultural com ninguém, recebendo as honras como encargos, cumprindo todas suas tarefas com o zelo de um missionário. Meu Deus, como poucos seres humanos são assim!

            Membro da Academia Rio-Grandense de Letras há muitas décadas, morreu, aos 86 anos, no exercício da presidência. E esta entidade, fundada em 1901, foi outro dos seus grandes amores. Cuidava dela como se fosse um bem muito raro e sempre a colocava em primeiro lugar na repartição do seu tempo de trabalho. E para nós, seus colegas, dedicava o carinho especial reservado aos irmãos.      

            O irmão Elvo foi à missa, tomou café normalmente e morreu. Tranqüilo e sereno seguiu no rumo do céu. Foi-lhe poupado o sofrimento da agonia e a dor de sua ausência vamos ter que repartir entre nós.

* Escritor, membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

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O Batalhão Sagrado
Alcy Cheuiche*

No dia 7 de abril de 1831, o Imperador D.Pedro I foi obrigado a abdicar e abandonar o Brasil. Por essa razão, até hoje recordamos essa data em algumas ruas e naquele lindo teatro de Pelotas.

Dizem que o ex-Imperador mal olhou para trás quando sua nau deixou o Rio de Janeiro. Na sua cabeça já estava estabelecido o plano de retomar o trono de Portugal e uni-lo outra vez ao Brasil. De fato, depois de muitas peripécias, chegou a ser coroado D.Pedro IV, mas não tardou a morrer. Ficou em Lisboa uma estátua sua, que todos os brasileiros estranham quando a vêem pela primeira vez. Desde crianças tínhamos aprendido a reconhecê-lo pelo rosto sem barbas e ali está ele barbudo como D.Pedro II.

Este coitado tinha apenas cinco anos naquele 7 de abril de 1831 e quase por um milagre conseguiu ascender ao trono. E o artífice maior desse feito, hoje a história reconhece, foi Luiz Alves de Lima e Silva, seu professor de esgrima desde os sete anos de idade. Major naquela época, reconhecido como um dos mais brilhantes oficiais do Exército Brasileiro, o futuro Duque de Caxias apegou-se ao menino e jurou-lhe fidelidade para toda a vida. D. Pedro II, que recebeu a maioridade com apenas quatorze anos para que pudesse reinar, também transferiu para Caxias muito de seu afeto filial. E devemos à coroa de D.Pedro II e à espada de Caxias a incrível unidade territorial brasileira. Inclusive a recuperação do Rio Grande do Sul, cuja perda era praticamente aceita pela regência até 1840.

Tudo isso que acabo de contar, salvo talvez o fato de que Caxias foi professor de esgrima do Imperador menino, é do conhecimento da maioria dos brasileiros mais cultos. Mas o que poucos sabem é o fato de que Caxias, nos dias que antecederam o golpe contra D. Pedro I, colocou-se a seu lado para defendê-lo. Seu argumento, inclusive contra o pai, General Francisco de Lima e Silva, futuro Regente do Império, foi o de que o Brasil cairia em um vazio de poder no momento em que D. Pedro I deixasse o país.

E foi o que realmente aconteceu, principalmente no Rio de Janeiro. Contam os cronistas da época, que era tal o número de desertores das Forças Armadas, que a polícia não tinha condições de combatê-los e os criminosos tomaram conta da capital. As famílias ficavam trancadas em suas casas, enquanto ladrões, assassinos e estupradores percorriam impunemente as ruas praticando os crimes mais hediondos. E foi então que o Major Luiz Alves de Lima e Silva resolveu reagir.

Quase todas as noites, durante alguns meses, o futuro Patrono do Exército percorreu as ruas do Rio de Janeiro no comando de um grupo de oficiais dispostos a enfrentar os criminosos. Usando as espadas para escorraçar os ladrões e armas de fogo para matar os assassinos a solta, conseguiram os integrantes desse grupo de voluntários a façanha de devolver a paz às ruas do Rio de Janeiro. E pareceu ao povo tão incrível aquele feito, que os cariocas chamavam o grupo de militares pelo nome de Batalhão Sagrado.

Penso nisso quando o Rio de Janeiro está outra vez nas mãos dos bandidos, desta vez melhor armados e até mancomunados com uma parte da polícia, e alguns consideram que o Exército, a Marinha e a Aeronáutica não devem tomar parte ativa nessa guerra civil. É claro que não se deve mandar às ruas conscritos de dezoito anos que estão apenas em treinamento militar. Mas tropas profissionais, como as que se encontram no Haiti com a mesma finalidade, podem e devem servir a Pátria em qualquer trincheira. Se Caxias fosse major e tivesse trinta anos, seguramente assumiria o comando deste novo Batalhão Sagrado.

*Escritor
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Pitangas na Feira
 Alcy Cheuiche*

Quando menino, sonhei muitas vezes com a casa de chocolate de Joãozinho e Mariazinha. Depois, acabei convencido que ela só existia nos livros. E sonhei com uma casa feita de livros. Afinal, eles não têm mais ou menos a forma de tijolos? Pois agora, já bem grisalho, recebi de presente uma praça toda de livros. Durante dezessete dias, fui abordado por pessoas que me diziam, com os olhos brilhando:

- Como está bonita a sua Feira!

E eu concordava, feliz, como se ela fosse verdadeiramente minha. E pensava na música da infância: se essa rua fosse minha, eu mandara ladrilhar, com pedrinhas de brilhantes... Erguia os olhos e via todas as árvores da praça, até o guapuruvu que caiu, enfeitadas de Natal. E via com orgulho, lá na beira do Guaíba, milhares de crianças extasiadas com os livros espalhados pelo porto. Um porto alegre, finalmente, depois de tantos anos escondido tristemente atrás de um muro.

Vivi cada minuto da nossa Feira do Livro. Desde a abertura no Teatro Sancho Pança (nome melhor impossível de escolher), quando recordei a minha versão do nascimento do Mario Quintana em Alegrete, até o momento em que fui chamado, no mesmo palco, para cantar de brinquedo com os fantásticos profissionais do Concerto Zaffari.

Momentos marcantes não faltaram. O carinho de amigos, leitores e autoridades em centenas de mensagens que não tive tempo de agradecer. A homenagem que recebi dos colegas da Associação Gaúcha de Escritores, coordenada pela Jane Tutikian. As palestras e debates sobre Sepé Tiaraju e Santos Dumont (e os passeios que fiz com o Voltaire Schilling, o WalterGalvani, o Maurício de Souza, o Ziraldo e muitas crianças junto aos painéis fotográficos onde contamos a história do “brasileiro voador” nos céus de Paris). A emoção das pessoas na Biblioteca do Patrono quando assistiram a apresentação do livro “Os doze trabalhos de Hércules”, de Monteiro Lobato. A palestra no Instituto Histórico e Geográfico dedicada a mim pela colega portuguesa Dulce Matos. A visita do meu editor alemão Christoph Jahn. Os muitos autógrafos que dei nos mais diferentes locais da feira. O almoço com os alunos da Oficina de Criação Literária e a maravilhosa sessão de autógrafos que se seguiu. As fotos do artista Luis Ventura. O cuidado com a agenda e com todos os meus passos que tiveram a Jane e a Rejane, meus dois anjos da guarda. As mais de duzentas entrevistas para jornais, rádios e emissoras de televisão, sempre num clima de entendimento e até de carinho. As relações fraternas com o verdadeiro “Dono da Feira”, o amigo Waldir da Silveira, Presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro. O orgulho que senti do povo gaúcho e de nossos intelectuais pela dupla eleição de um idealista de Taquara, um verdadeiro operário das letras no Fato Literário da RBS.

Boas piadas também aconteceram. Para mim, a melhor foi o comentário de um menino quando a professora parou seus alunos para apresentá-los ao patrono. O que é um patrono? Perguntou ele olhando firme para mim. Respondi com a fórmula habitual: o patrono é um escritor eleito para representar na Feira do Livro todos os escritores do Rio Grande do Sul. A resposta veio rápida e sincera: mentira tua!

Bueno, boas recordações não vão faltar por muito tempo. Uma das mais lindas foi da multidão que me esperava na primeira tarde de autógrafos em que passaram pelas minhas mãos, como velhos amigos, doze dos meus livros. (Mesmo depois de quarenta anos de literatura, ainda me impressiono com a paciência das pessoas esperando na fila). Estava escrevendo um autógrafo para o Prefeito de Caçapava do Sul quando o Remaldo Cassol colocou sobre a mesinha um pacote cheio de pitangas. E me disse: são do pátio do Catarino Coutinho. Provei uma e recebi de volta toda a minha infância. Muito obrigado, meus amigos, meus irmãos. Não poderiam ter escolhido um presente melhor.


* Escritor
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Jornal Nacional nas Missões Guaranis: entre tapas e beijos
Alcy Cheuiche*

             Os beijos começam pela escolha de São Miguel das Missões como ponto de partida da caravana do Jornal Nacional que vai percorrer o país para mostrar “os anseios e desejos dos cidadãos”. Nenhum local em nossa latitude é mais importante do ponto de vista histórico e político. As ruínas da catedral, famosas no mundo inteiro, foram tombadas pela UNESCO, em 1983, como “Patrimônio da Humanidade”, o único do Rio Grande do Sul e um dos poucos do Brasil. E essa escolha se fez não somente pela ousadia do famoso arquiteto jesuíta Giovane Batista Primoli e da tarefa hercúlea dos índios que a construíram com entusiasmo e amor, de 1734 a 1744, e a queimaram em 1756 para não entregá-la intacta aos invasores espanhóis e portugueses. São Miguel é, acima de tudo, o símbolo de uma experiência educativa e cultural que revelou ao mundo a mais perfeita sociedade socialista cristã de todos os tempos. E a única oportunidade que os índios americanos tiveram para mostrar, durante mais de cem anos, as suas qualidades sociais e culturais.

 E isso eu não afirmo sozinho. Desde Voltaire, no século XVIII, até o Governo do Rio Grande do Sul que acaba de reconhecer oficialmente um líder missioneiro, Sepé Tiaraju, como herói rio-grandense nos 250 anos de sua morte, os trinta e três povos das missões não podem ser confundidos com o “fundamentalismo dos aiatolás”, um tapa na cara da história missioneira. Quanto ao termo reduções, dizer que tinham esse nome porque “os índios eram de fato reduzidos ao poder jesuítico” é uma asneira semântica. Em verdade, a palavra redução significa recondução, a partir da frase em latim: Ad eclesiam et vita civile reductere, que significa “reconduzir à Igreja e à vida civil”. Essa acusação é velha e superada, como a que afirma que os índios comiam os bois que lhes davam para lavrar a terra. Em verdade, com a destruição das reduções guaranis, os invasores portugueses e espanhóis “herdaram” dois milhões de cabeças como espólio de guerra, abigeato gigantesco que foi a base de toda a riqueza pastoril do sul do Brasil, e propiciou aos alemães que chegaram em 1824 o início da até hoje próspera indústria coureiro-calçadista. Vamos respeitar os índios guaranis, eles não eram (e não são) bobos como muitos brancos ainda continuam pensando.

 * Escritor, autor do livro “Sepé Tiaraju”, com edições em português, espanhol e alemão.
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Sepé Tiaraju, símbolo da nação guarani
 
Alcy Cheuiche*

               

          Guarani, em seu próprio idioma, significa guerreiro. E foi como guerreiro que morreu Sepé Tiaraju no entardecer do dia 7 de fevereiro de 1756. Ou seja, há exatamente duzentos e cinqüenta anos.

O combate se deu no atual perímetro urbano de São Gabriel, cidade que acolhe no dia de hoje milhares de peregrinos. Podemos chamá-los assim porque  São Sepé foi canonizado há mais de dois séculos pelo povo, e nos ensinaram que a voz do povo é a voz de Deus.    

            Mas como figura histórica, Sepé Tiaraju dispensa as lendas e os altares. É o maior símbolo da nação guarani e da saga missioneira.  Nivelando-se e até superando, em termos americanos, outros índios que lutaram contra o invasor, como Cuautêmoc e Tupac Amaru.

            O que dói em muitos brasileiros é que os invasores do nosso território eram portugueses e espanhóis. Um exército bem armado de três mil e quinhentos homens, representando duas das maiores potências coloniais da época. Três dias depois da morte de Sepé, a 10 de fevereiro de 1756,  essas tropas dizimaram a canhonaços cerca de mil e quinhentos índios  armados apenas com lanças, arcos e flechas. E depois seguiram até os Sete Povos, destruindo a ferro e fogo um dos maiores sonhos cristãos de todos os tempos. Um verdadeiro “Patrimônio da Humanidade” como a UNESCO tombou as ruínas de São Miguel.

            Se os dirigentes atuais de Portugal e Espanha tivessem a grandeza do Papa João Paulo II, poderiam pedir perdão aos guaranis por esse massacre. Poderiam até, a exemplo do governo alemão com os judeus do holocausto, indenizar os infelizes sobreviventes dessa nação que  vivem da caridade pública. Aliás, na Alemanha, existe uma lei chamada de Auchwitzlüge (mentira de Auchwitz) para sumarizar os processos de julgamento dos que ainda negam o assassinato de milhões de judeus nas câmaras de gás. Em síntese, quem mentir que esses crimes não aconteceram, vai preso. Seria bom que tivéssemos uma lei semelhante no Brasil e em toda a América para os que negam o genocídio de milhões de índios desde o Alasca até a Patagônia. E sentem até vergonha desse sangue que corre em nossas veias.

            Mas o momento é bom para os sobreviventes da nação guarani. Depois do fiasco dos duzentos anos de sua morte, quando as autoridades lhe negaram um monumento, Sepé Tiaraju foi reconhecido oficialmente como herói rio-grandense.  O projeto do deputado Frei Sérgio Görgen foi aprovado por unanimidade na Assembléia Legislativa e  sancionado pelo Governador Germano Rigotto. E esse exemplo deverá alertar muitas consciências sobre a dívida que temos com todos os índios do Brasil.

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Hablando Espanhol, Português e Guarani
Alcy Cheuiche*

              Em 2001, participei do encontro Porto Alegre/Buenos Aires, realizado na capital argentina. Um dos grandes momentos foi quando fomos recebidos na Comissão de Cultura da Câmara de Deputados. Discutiu-se a maneira de estreitar nossas relações através das artes e letras, e um dos pontos de contato foi a História das Missões Guaranis, comum a nossos dois países. A Argentina tem até uma província com o nome de Misiones e nós conseguimos o feito de conquistar o título de Patrimônio da Humanidade para as Ruínas de São Miguel. Popularizar o tema foi uma estratégia considerada positiva, e a vitória da Escola de Samba “Beija-flor de Nilópolis”, quatro anos depois, mostrou que estávamos certos em pensar assim.

Pois naquele encontro em Buenos Aires, liderado pelo então Prefeito Tarso Genro, tivemos alguns momentos de verdadeiro intercâmbio, mas ficou patente uma deficiência de ambos os lados. Poucos de nós falavam espanhol e nenhum deles falava português. E o portunhol, com mil perdões ao nosso Ministro da Cultura, às vezes atrapalha mais do que ajuda na comunicação. Recordo que um dos escritores gaúchos que parecia em casa era o nosso Carlos Urbim, doble chapa de Livramento e Rivera.

Pois agora, tomo conhecimento que, finalmente, vai começar uma experiência de escola bilingüe na fronteira com a Argentina. Segundo o noticiário, Uruguaiana e Paso de Los Libres, na fronteira gaúcha, e Dionísio Cerqueira e Bernardo de Irigoyen, na fronteira com Santa Catarina, serão os pólos pioneiros. O sistema a ser aplicado vai começar com as crianças da pré-escola e Primeira Série do Ensino Fundamental. Os professores argentinos e brasileiros continuarão alfabetizando seus alunos na língua materna, mas atravessarão a fronteira para ensinar o idioma estrangeiro de forma oral e lúdica aos seus pequenos vizinhos. Idioma se aprende falando e brincando, a escrita vem depois. A tese me parece absolutamente correta.

O plano, segundo informações dadas pelos Ministros da Educação dos dois países, Tarso Genro e Daniel Filmus, deverá ser formalizado no dia 4 de março. E o mais importante, servirá de modelo para experiências futuras em nossas fronteiras com outros países, inclusive o Paraguai. Como se sabe, os paraguaios têm duas línguas oficiais, o espanhol e o guarani. Assim, não custa sonhar que um dia as nossas crianças nascidas na fronteira, além do espanhol, também vão falar o idioma de Sepé Tiaraju, o grande esquecido da Marquês do Sapucaí. E graças a esse verdadeiro intercâmbio cultural, o Brasil será mais irmão de nossos vizinhos e, em nome do Pai e do Filho, será também guarani.

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Cesárea, 61
Alcy Cheuiche

            Com tantas imagens, tantos rostos, o dela não me sai da cabeça. Uma pequena fotografia com a identificação: Cesárea, 61. Como ela ficaria feliz em ver sua foto nos jornais, mesmo revelando a idade, o que não agrada a nenhuma mulher. Seus ancestrais africanos, depois de muita luta contra a escravatura, ganhavam a liberdade aos sessenta anos. Mas a Lei dos Sexagenários foi engolida há muito tempo pelo salário mínimo insuficiente, pela aposentadoria ilusória, e as Cesáreas continuam a trabalhar. Até quando? Até que o corpo resista, é a regra geral.

            Que sobrenome teria a Cesárea? Não foi necessário investigar. Todos que leram a notícia entenderam que se tratava de uma empregada antiga, de toda a confiança, dessas que não se encontram mais. Como era o sobrenome da Tia Anastácia? Monteiro Lobato nunca nos contou. Mas isso não a impedia de cuidar do Sítio do Picapau Amarelo, de fazer  bolinhos que nos davam água na boca, de transformar um sabugo no Visconde de Sabugosa, uma boneca de pano na Emília, e pronunciar palavras de sabedoria popular que equilibravam os arroubos científicos e aventureiros de Dona Benta, Narizinho e Pedrinho.

            Pelo menos uma pessoa chamava a nossa heroína de Tia Cesárea. Exatamente aquele sobrinho que a vendeu. A empregada antiga jamais trairia a confiança de sua patroa, que trabalhava em Brasília, mas mantinha a casa funcionando em Porto Alegre. Uma intelectual que dependia da sua empregada doméstica para poder trabalhar em paz. Para que Cesárea abrisse a porta do apartamento, somente enganada por alguém de sua própria confiança. E foi o que aconteceu.

            Cesárea abriu a porta e o sobrinho entrou com mais dois marginais. Bastava ter trancado a tia no banheiro. Mas essa gente é covarde e só atua sob o efeito de cola de sapateiro, bebida alcoólica ou outra droga qualquer. Esfaquearam a velha senhora e levaram alguns aparelhos eletrônicos que não valem a vida de ninguém. Fugiram deixando a guardiã da casa se esvaindo em sangue. E quando ela foi socorrida e levada ao Pronto Socorro, ainda conseguia falar. Mas por vergonha ou lealdade com sua própria família, não contou que o sobrinho era um dos ladrões.

            Cesárea morreu no hospital, o sobrinho foi preso e confessou tudo. Uma vez elucidado o caso, a fotografia de Cesárea, como é lógico, desapareceu dos jornais. Foi exatamente nos dias em que começava o Fórum Social Mundial e todos estávamos muito ocupados em receber mais de cem mil habitantes do Sítio do Picapau Amarelo, gente do mundo inteiro que ainda luta pela Liberdade, Igualdade e Fraternidade. O policiamento foi reforçado em Porto Alegre e os veranistas reclamaram da ausência de muitos brigadianos deslocados para a capital. Depois de uma semana de debates, o Fórum terminou, os idealistas voltaram para seus países e só ficaram por aqui os sonhadores de plantão.

            Nos últimos dias, vi milhares de imagens na televisão, fotografias em jornais e revistas, mas aquela pequenina foto da Cesárea não me sai da cabeça. E junto dela uma pergunta para todos nós. Será que a nossa comunicação, dita social, através da indução do consumo desvairado não está valorizando mais um aparelho eletrônico do que uma vida humana? Será que realmente estão errados os que juram que a paz dos nossos lares só virá com a justiça social? Responda quem for capaz.

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As paredes das cavernas
 
Alcy Cheuiche

Quando Pablo Picasso visitou a gruta de Lascaux, na França, chef d’oeuvre da pintura rupestre, escreveu uma mensagem para a posteridade: Afinal, encontrei meu mestre.

Realmente, através da pintura, foi ali que a arte gráfica nasceu das mãos dos homens e mulheres de Cro-Magnon. Arte porque transmite emoção e beleza. Gráfica porque é ancestral da nossa escrita. Incapazes de uma comunicação oral que narrasse seus feitos de caça, eles misturaram as primeiras tintas e as aplicaram com os dedos sobre o suporte que os rodeava, a pedra bruta.

Curioso que chamemos hoje de “digital” uma das mais modernas técnicas da indústria gráfica. Dígitos são os nossos dedos, os mesmos de ontem e de hoje. Ansiosos para criar e transmitir aos outros as nossas obras de arte. O Egito guarda os melhores exemplos dessa ânsia de sobrevivência através da comunicação gráfica. Graças a Champollion, podemos ler como escrita cursiva os caracteres gravados nos túmulos e nas paredes dos templos. São histórias do cotidiano no tempo dos faraós, que inspiraram escritores como Mika Waltari a dar-lhes uma nova vida através dos livros.

Seria injusto contar um pouco da história da indústria gráfica, sem falar no produto que substituiu o papiro e o pergaminho. Foi observando como os marimbondos construíam suas casas com serragem e saliva, que um carpinteiro chinês inventou o papel. Era no primeiro século da era cristã e somente seiscentos anos depois, através dos árabes, que o maravilhoso invento tornou-se a base sólida para a comunicação escrita. Um dos primeiros livros escritos em papel foi “As mil e uma noites”, coletânea de estórias populares, precursora das obras modernas de ficção.

Tenho na minha biblioteca um pequeno tesouro. Um livro não maior que a unha do polegar. Comprei-o como suvenir de uma visita a outro templo da arte gráfica. Um recanto tranqüilo da Alemanha, onde Gutenberg fez funcionar a primeira impressora sob o olhar incrédulo do mundo.

Muitos falam na importância dos enciclopedistas na propaganda da Revolução Francesa. Mas é preciso explicar que o povo semi-analfabeto do século XVIII teve recusada pela monarquia a possibilidade de adquirir conhecimentos através dessas  primeiras coletâneas da sabedoria universal. Por que proibir a primeira enciclopédia? Porque o povo descobriria que a chave da sua liberdade está no saber. E depois iria exigir mais. Quem sabe a igualdade de direitos e a fraternidade universal.

As palavras impressas venceram a luta contra o absolutismo. O mundo gráfico é a maior conquista da democracia. Ainda se proíbem e queimam livros, mas cada vez em menores proporções. Além disso, a indústria e o comércio, através das agências de propaganda, sofisticaram as exigências visuais dos consumidores. Dos ingênuos “reclames” oferecidos aos nossos avós, chegamos a verdadeiras obras de arte nas embalagens, nos out-doors, nas páginas de revistas e jornais. Tudo passa pela arte gráfica. Desde o selo da vitória brasileira na Copa do Mundo, até o papel que valoriza o presente do nosso aniversário.

Aliás, neste momento, todos os que gostamos de livros estamos de aniversário. Mas não podemos esquecer, nas comemorações do cinqüentenário da FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE, que ela é, acima de tudo, uma obra gráfica. E que, sem a indústria gráfica, nesta e em outras latitudes, ainda estaríamos aplicando tinta com nossos dedos nas paredes das cavernas.

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Café frio
Alcy Cheuiche*

No tempo que o Rio de Janeiro era a capital do Brasil, contava-se a seguinte estória.

Dois leões fugiram do zoológico da Quinta da Boa Vista e desapareceram. Durante dias os cariocas não mudavam de assunto. Onde se esconderam as feras? A qualquer momento podem devorar alguém e essa polícia incompetente não faz nada. Os bombeiros deixavam casas queimando para atenderem chamados sobre os leões. Todas pistas falsas. Somente um leão velho de circo foi preso para reconhecimento.

A população vivia em pânico, até que um dia os dois fugitivos foram capturados. Mas o interessante é que um deles estava gordo e o outro magérrimo. O que teria acontecido? De volta ao zoológico, a mesma pergunta os leões fizeram um para o outro. E o magro contou suas aventuras.

Logo que nos separamos, embrenhei-me na Floresta da Tijuca. Foi o meu grande erro. Nem uma simples lebre para comer. Passei dias corrido pela cachorrada, até que me pegaram. Te juro que não fujo mais. Daqui não saio. Daqui ninguém me tira. E tu? Como conseguiste comer?

O gordo lambeu os bigodes e sorriu, sacudindo o rabo. Muito simples. Naquela primeira noite fugi na direção do centro e me escondi no prédio de um ministério. Todos os dias eu comia um funcionário e ninguém dava falta. Até que cometi a burrice de comer o homem que servia o cafezinho. Procuraram por ele em todos os cantos e me acharam.

Lembro desta estória quando as eleições terminaram na maioria das cidades do Brasil e vamos esperar três meses pela posse dos eleitos. E até dos reeleitos. Logo depois da vitória, o prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, foi recebido em triunfo pelos seus funcionários. Para que esperar até janeiro? Deveria ter tomado posse naquela hora, aproveitando que todos tinham ido trabalhar.

Na França, até o Presidente da República toma posse logo depois das eleições, creio que no máximo em quinze dias. Quem se elege deve ter pronto seu plano de governo e escolhidos seus assessores. Deixar o antecessor mais três meses no poder, inclusive com a responsabilidade de aprovar o orçamento do ano seguinte, me parece irracional.

Mas o pior são os prefeitos que não se reelegeram. Vão passar os próximos meses governando numa quase ilegitimidade. Loucos para cair fora, serão olhados com desprezo pelos CCs que vão ficar desempregados e com desconfiança pelo povo. Que tramóia eles vão fazer nesses últimos meses de “mamata”? É a hora que pedem o cafezinho e o garçom não vem. E quando vem, serve o café frio.

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MOZART PEREIRA SOARES, O MESTRE
Alcy Cheuiche

O mestre vai fazer noventa anos. Recolhido ao seu sítio de Palmeira das Missões, convive agora somente com alguns familiares e amigos. No início deste ano perdeu sua esposa Tereca, um golpe forte para quem sempre foi feliz no casamento. Graças ao sobrinho Oli, que mudou-se para junto do tio, Mozart Pereira Soares está bem cuidado. Mas  nós, seus amigos que vivemos longe, sentimos a falta da sua presença. Porque o mestre é único. Um ser humano muito difícil de clonar.

Conheci o Professor Mozart em Porto Alegre, na antiga Faculdade de Medicina da UFRGS, hoje um prédio abandonado na frente da Faculdade de Direito (que ele iria cursar depois de aposentado, diplomando-se advogado com 71 anos). Eu cursava Medicina Veterinária, mas a Cadeira de Fisiologia era comum para as ciências médicas. Ali, o Prêmio Nobel de Fisiologia, Bernard Hussai, deixara sua marca no aluno predileto. Primeiro argentino a receber uma tal honraria, ele recebera  o jovem Mozart em Buenos Aires, para um Curso de Aperfeiçoamento, em 1949. Nada melhor para expandir os conhecimentos de nós todos, seus futuros alunos, do que uma tal parceria. Não é de estranhar, portanto, que Mozart Pereira Soares, como veterinário, tenha sido o primeiro Professor de Fisiologia da Faculdade de Medicina de Santa Maria.

Nesse particular, vale a pena contar uma boa história. Indicado pelo Prêmio Nobel ao Reitor Mariano da Rocha, Mozart Pereira Soares aceitou lecionar Fisiologia para os futuros médicos. Mas, ignorantes do seu vasto saber, alguns alunos resolveram boicotar o novo professor. Consideraram como desprezo receberem aulas de  um veterinário, fossem quais fossem os títulos que tivesse. Assim, a combinação era faltarem todos a sua primeira aula, marcada para uma terça-feira. Acontece que, na véspera, na segunda-feira, deveria chegar à Santa Maria o Ministro da Saúde para proferir conferência e receber o título de Doutor Honoris Causa. O homenageado ficaria poucas horas na cidade e por isso iria diretamente do aeroporto para o salão de atos cumprir seu programa. O Reitor e demais autoridades foram recepcioná-lo, enquanto o auditório ia ficando repleto de convidados, na maioria professores e alunos da Universidade. Mas, por falta de teto, o avião não conseguiu aterrissar e Mariano da Rocha, muito decepcionado, foi até ao salão nobre comunicar o cancelamento do programa. Ao chegar, a primeira pessoa que encontrou foi Mozart Pereira Soares. Disse-lhe o que acontecera e acrescentou: é uma lástima convocar toda a Universidade para nada. Ao que Mozart retrucou: qual é o tema da conferência que o Ministro iria fazer, Dr. Mariano? O papel da medicina no mundo moderno. Pois então, se o senhor quiser, eu faço a conferência. E assim, de improviso, subiu à cátedra e falou durante uma hora e meia, sendo aplaudido de pé por toda a assistência. No outro dia, é claro, os alunos de medicina estavam todos lá para assistirem a sua primeira aula. E até hoje muitos médicos famosos recordam com saudade daquele grande professor.

Além do sucesso como professor universitário, Mozart é historiador, romancista e poeta. Membro da Estância da Poesia crioula, e seu Presidente em um dos momentos áureos da nossa academia chucra, seu livro “Erva Cancheada” é obra definitiva da poesia regional. Com ele revelou ao Brasil a vida e o folclore dos ervateiros, além de abordar temas universais, em linguagem gaúcha, como nos poemas “Flete Negro” e “Senha”, entre outros. Seu primeiro romance, “A pastoral missioneira” recebeu em 1972 o Prêmio Ilha de Laytano, o mais importante da época. Ali, o mestre nos conta a sua infância campesina, como quem a fosse pintando com aquarela. Os pais, muito pobres, retirando da terra a sua sobrevivência. A avó Eliza, com suas histórias do tempo dos jesuítas, o galho de arruda atrás da orelha e o relho para castigar os guaipecas sempre ao alcance da mão. Todo o meio que o cerca, quando abriu os olhos para o mundo, ganha vida e mexe com as nossas emoções: o rancho dos avós onde nasceu e a casinha modesta dos pais, os utensílios da vida diária, os bichos, as árvores, a sanga com seus lambaris, as primeiras artes e o castigo certo pelas mãos do pai. Tudo é real, puro, emocionante, como no primeiro livro de infância de Marcel Pagnol, o grande escritor francês, e talvez até melhor.

Sem nunca deixar de ser um mestre das ciências médicas e rurais, tendo sido Presidente da Sociedade de Veterinária do Rio Grande do Sul, Diretor da Faculdade de Agronomia e Veterinária,  Professor Emérito, Decano do Conselho Universitário e, nessa condição, Reitor da UFRGS, o Professor Mozart, como os gregos do século de Péricles, tornou-se um homem de cultura universal, tanto científica, como humanística. Assim, quando o atual Vice-Governador do Estado, escritor Antonio Hohlfeld, garimpou sua obra e revelou-a por inteiro ao Brasil, o titulo que escolheu foi significativo: “Saber universitário com gosto campeiro”. Uma grande definição da vida e obra de um homem fora do comum.

Na literatura, com mais vinte livros que se seguiram aos acima citados, Mozart Pereira Soares conquistou um público cativo e elegeu-se membro da Academia Rio-Grandense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. Conseguindo popularidade a ponto de ser entrevistado no famoso programa do Jô Soares, provou que a erudição é respeitada em todos os segmentos da sociedade, desde que sirva para o aperfeiçoamento do povo. E para isso, é preciso aliar um profundo conhecimento de todos os assuntos que trata, com o prazer de ensinar, de iluminar as mentes de seus alunos e leitores, qualidade rara que permite que nós o chamemos de mestre.

Há poucos dias, Maria Berenice, minha mulher, e eu, fomos visitar o velho Professor em seu refúgio. Levávamos, de parte do Presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária, Dr. Eduardo de Bastos Santos, uma estatueta que recebi em seu nome em solenidade realizada em Porto Alegre. Mais uma vez nossa classe profissional o homenageara como “Destaque Cultural do Ano”. Um nova honraria a ser colocada ao lado da Medalha Assis Brasil, da Medalha Simões Lopes Neto, da Medalha Negrinho do Pastoreio, e tantas outras que valorizaram aquele que muitos consideram o homem mais culto do Rio Grande do Sul. Mas esta tem um sabor especial. O sabor campeiro de ser oriunda de seus colegas veterinários, exatamente no momento em que o mestre deixou o palco e recolheu-se às suas raízes.

Ao entardecer, conversando com ele diante da casa do sítio, com uma linda paisagem de mata preservada e coxilhas verdes, ergueu-se em vôo rasante um quero-quero. Para provocar sua memória, perguntei:

  Como é o nome científico do quero-quero, Mestre?
      Sem titubear, ele respondeu:
      – Bellopterus chilensis lampronatus.
      E acrescentou:
      –  Em tradução livre, o nome vem do latim bellus, guerra e pterus, asa. Ou seja, o que carrega a arma nas asas.

E me veio à mente o final do poema de Glaucus Saraiva “A lenda do quero-quero”, recordando essa característica da nossa ave sentinela:

"Voará com a esperança,
       guardando a ponta de lança
       a gaúcha tradição”.

Podemos todos ficar tranqüilos. Mesmo em avançada idade, quase só em seu exílio voluntário, o mestre continua possuidor de uma mente clara e poderosa. E podemos seguir aprendendo com ele. Graças a Deus.

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O ônibus fluvial
 Alcy Cheuiche

Da janela do meu quarto vejo um pedaço do Sena. À direita, a catedral de Notre Dame é contornada pelo rio. Paris nasceu aqui. Nesta ilhota chamada pelos romanos de Lutecia Parisiorum, destinada a ser o coração do mundo.

Nesta manhã ensolarada, o que mais me impressiona é o movimento de barcos em ambos os sentidos. São quase dez horas e os bateaux mouches cheios de turistas dividem as águas com péniches carregadas de carvão. Quase a minha frente, um ônibus fluvial estaciona em sua parada. Descem algumas pessoas, sobem outras, e ele prossegue o trajeto rio acima. Daqui a duas horas, mais ou menos, estará de volta pela outra margem, a chamada rive droite. Graças a esse transporte alternativo, além do prazer de navegar nesta cidade linda, os passageiros aliviam um pouco os trens do metrô e os ônibus normais.

Em seu livro “Terra dos homens”, Saint-Exupéry conta a visita de um árabe do deserto a Paris. Depois de assustar-se com o Sena, o beduíno parou estarrecido diante de um chafariz e perguntou ao escritor: para onde vai toda essa água? Desce pelos canos e vai rio abaixo. E para que serve? Para bonito, para alegrar os olhos das pessoas. Aí, Saint-Exupéry narra que o árabe caiu em profunda depressão, pedindo-lhe para voltar o quanto antes ao seu deserto, onde as gotas d’água valem como diamantes.

Há muitos anos, escrevi um livro de poemas intitulado “Entre o Sena e o Guaíba”. Lembro que na apresentação, eu dizia:  No Sena lavou o rosto nossa história universal. Guaíba é o sangue da terra dourado de pôr-do-sol. Hoje, revoltado com tanto desperdício de água, eu diria que o Sena é um pedaço da França em movimento. E que o Guaíba é o retrato do nosso imobilismo.

Por que não temos ônibus fluviais em Porto Alegre? Imaginem uma linha permanente margeando o Guaíba desde o Lami, com paradas na Ponta Grossa, Ipanema, Pedra Redonda, Tristeza, Assunção, Cristal, Estádio Beira-Rio, Anfiteatro Pôr-do-Sol, Parque Maurício Sirotsky, Museu do Gasômetro, Cais do Porto. E dali do monumento envidraçado, bem na frente da Praça da Alfândega (e da Feira do Livro), prosseguindo e parando na Estação Rodoviária, Doca Turística, Canoas. Voltaria pelas ilhas e pelas margens do Jacuí, servindo aos que residem em permanência e possibilitando a muitos moradores de fim-de-semana fixarem-se definitivamente em lugares mais aprazíveis.

Isso sem falar no famoso transporte fluvial entre Porto Alegre e Guaíba, aliviando a carga dos ônibus comuns, o bolso dos passageiros e ainda levando turistas para visitarem o cipreste histórico e a casa onde viveu Gomes Jardim e morreu Bento Gonçalves.

 É por essas idéias e outras que chamam os poetas de sonhadores. Mesmo os que sonham de olhos abertos, enxergando os ônibus fluviais de Paris, como eu. Da mesma maneira que vi os bondes da Alemanha, silenciosos, baratos e confortáveis. E pensei nos bondes de Porto Alegre, arrancados das nossas ruas pelo “bem do progresso”. Ou pelo bem do bolso de alguns?

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French Fries
Alcy Cheuiche

Um dos grandes orgulhos dos americanos é que a data nacional deles é anterior ao 14 de julho. E não somente por imposição do calendário. Em verdade, a Independência dos Estados Unidos data de 1776 e a Revolução Francesa de 1789. O maior traço de união entre ambas foi o Marquês de La Fayette, jovem liberal monarquista que lutou contra os ingleses ao lado dos revolucionários americanos. Devolver-lhe o favor foi a desculpa romântica invocada pelos Estados Unidos para participar, ao lado da França, do final da Primeira Guerra Mundial. Já na Segunda Guerra, os franceses ficaram realmente devedores dos Estados Unidos, principalmente na libertação de Paris. Ernest Hemingway narra como testemunha esse episódio, afirmando que, dali em diante, americanos e francesas juraram amor eterno.

É preciso reconhecer, no entanto, que as francesas mais apreciadas nos Estados Unidos são as batatas fritas. Chamadas de French Fries, são consumida de costa a costa com igual voracidade. Depois da recusa da França em invadir o Iraque sob as ordens de Mister Bush, alguns restaurantes ultra-nacionalistas tentaram eliminar esse nome, mas a moda não pegou. Como também foram poucos os americanos que esvaziaram garrafas de vinho francês na sarjeta. Esse sim, um verdadeiro ato terrorista.

Em verdade, nem a batata frita é francesa e nem a Bastilha era uma prisão importante em 1789. Os belgas juram que foram eles os inventores, sendo contestados pelos peruanos e bolivianos, de cujas terras a batata foi levada para a Europa pelos espanhóis. Mas logo ganhou o nome de batata inglesa, embora seja adorada pelos teutônicos, menos na hora em que algum é chamado de alemão batata. Uma verdadeira salada histórica.

Quanto à Bastilha, construída 400 anos antes de sua destruição, é certo que foi durante muito tempo uma prisão inexpugnável. Ali estiveram presos muitos inimigos do Rei, sendo os mais famosos o Máscara de Ferro ( que existiu mesmo) e François Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire, que só não morreu por lá graças à sua amizade com o Rei da Prússia. Mas o certo é que, em 14 de julho de 1789, não restavam na Bastilha mais do que uns vinte prisioneiros de pouca importância. A fortaleza, arruinada e mal defendida, foi tomada facilmente pelo povo. Essa, a versão histórica. Mas a versão mais bonita é a dos velhos filmes americanos, em que o povo toma a Bastilha depois de uma luta tremenda, cantando em altos brados a Marselhesa, hino que ainda não fora composto.

Brincadeiras à parte, comemorar o 14 de julho, gostando ou não dos franceses, é obrigação de todos os republicanos e democratas, nos Estados Unidos e em qualquer parte do mundo. Foi o dia em que o povo deu o primeiro passo na luta pela liberdade. Uma longa marcha que nos livrou da monarquia absolutista e ainda nos levará à igualdade e à fraternidade humanas, mesmo que demoremos alguns séculos mais para conquistá-las.
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Livros em Gramado
 
Alcy Cheuiche  04/07/2003

 Os primeiros veranistas chegaram em Gramado com o trem de ferro, em 1920. O nome que lhes davam era correto, pois só iam mesmo no verão. Tanto é verdade que, vinte anos mais tarde, quando Torres entrou na moda, eles abandonaram a serra e foram bronzear-se a beira-mar. Foi o caos, como nos conta Romeo Riegel, um dos melhores cronistas da região. Os hotéis fecharam e a pobreza chegou na região das hortências.
  Hortências! Foi isso mesmo. Graças à primeira Festa das Hortências, realizada em 1958, Gramado escapou do marasmo e começou a receber turistas, matéria prima humana mais atraente que os veranistas. Inspirada na Festa da Uva de Caxias do Sul, a nova festa abarrotou a cidade de gente, obrigando o Prefeito Walter Bertolucci a pedir auxílio às casas particulares, dada a pobreza da hotelaria. Mas hotéis podem ser construídos com relativa rapidez. O que Gramado oferecia à sensibilidades de todos era sua natureza preservada até no centro da cidade e sua floresta de araucárias plantadas deste muitos anos por A.J. Renner, um pioneiro da ecologia naquela região.

Menos de cinqüenta anos depois da chegada dos primeiros turistas, Gramado é uma festa permanente de festivais, congressos, encontros oficiais e amorosos. Seus hotéis e pousadas fazem inveja a Bariloche. Seus restaurantes satisfazem os paladares mais requintados e não doem tanto no bolso como em outras cidades turísticas brasileiras. E se você estiver desprevenido de reais, basta procurar os restaurantes mais simples, verdadeiros genéricos da culinária brasileira e italiana, onde  encontrará comida gostosa e barata. 

Em agosto, o mundo do Cinema se reúne em Gramado e em dezembro é aquela apoteose do Natal Luz. Isso sem falar na Chocofest e no Teatro de Bonecos de Canela, cidade gêmea que também comemora o Natal despejando um punhado de Papais Noéis lá de cima da torre da sua igreja matriz.

Bem, há tanto o que elogiar por aqui que deixei para o fim o mais importante, a Feira do Livro de Gramado, que ocupa  a Rua Coberta até o dia 13 de julho. São dez mil livros a disposição dos turistas, disputando espaço nas sacolas sempre cheias de souvenirs. Aqui na serra, os livros tem cheiro de flores, gosto de chocolate e bouquet de vinho tinto. Sem esquecer o chimarrão que é servido na frente do refúgio dos escritores (também local dos autógrafos) das 10 da manhã às 7 da noite. Atrações culturais e artísticas ocupam o palco da feira e os locais reservados para a contação de estórias e outras atividades lúdicas. Mágicos, dançarinos, conferencistas, cantores, músicos, dividem espaço com escritores convidados e espontâneos, vindos de todos os pontos cardeais. Tudo isso organizado nos mínimos detalhes pela equipe cultural da Prefeitura, competente, atenciosa e feliz.

 Embora suspeito, por ser o patrono da 7a Feira do Livro de Gramado, já mandei um recado pelo Lasier Martins ao Ruy Carlos Ostermann: Porto Alegre que se cuide. Embora ainda criança, esta aqui vai ser muito em breve uma das melhores Feiras do Livro do Brasil. 
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Grenal é Grenal
Alcy Cheuiche

 

O fato aconteceu num cartório de Porto Alegre. Um casal veio registrar o filho e criou-se um impasse com o funcionário resmungão. Com esse nome eu não registro o menino. E por que não? Por que Grenal nunca foi nome de gente. Como não é nome de gente se é uma mistura do nome da minha mulher Gretchen e do meu nome, Juvenal? Essa história o senhor inventou para me enrolar, eu conheço muito bem o senhor e sei que é colorado doente. E daí? Eu sou pelo-duro e colorado, a minha mulher é alemoa e gremista e nos damos muito bem. Se dão bem até o dia em que botarem o nome de Grenal na pobre criança. E por que nós vamos brigar por causa do Grenal? Porque Grenal não é nome, Grenal é jogo de futebol, Grenal é sinônimo de briga, de discussão, pobre da criança. Pois eu acho que Grenal é sinônimo de garra, de valentia e, além do mais, o senhor já registrou um guri com nome de jogo de futebol. Que guri foi esse? O Caju, filho do Cacildo e da Juvelina. Não gostei do nome, mas caju é nome de fruta e fruta pode registrar, até o Duque de Caxias tinha o nome de Lima. Caxias, não é? Pensa que eu não sei que o Cacildo e a Juvelina são de Caxias do Sul? E daí? Daí que Caju é o Grenal de lá, o jogo do Caxias com o Juventude, vai me dizer que o senhor não sabia? Eu não entendo nada de futebol. Mas de Grenal o senhor entende. Claro que entendo, Grenal é Grenal. 
Como uma fábula, esta historinha nos revela uma característica fundamental dos gaúchos. Nós aqui não gostamos de ficar de fora da briga, detestamos o banco de reservas. Farroupilhas e caramurus, maragatos e pica-paus, chimangos e maragatos, sempre nos dividimos em duas facções irreconciliáveis. Virar a casaca? Mudar de partido político? Trocar de clube de futebol? Aqui não, meu amigo. Aqui, nós sempre escolhemos o nosso lado. Querem um exemplo? Nessa prévia do PT, até os inimigos políticos estão torcendo, não venham me dizer que não. E mesmo em completo silêncio, todos os gaúchos, inclusive o Brisola e o Simon, sabem em quem votariam se pudessem votar.  
Como Grenal é Grenal e esta frase foi criada por um político, o ex-Governador Ildo Meneghetti, eu também não vou ficar em cima do muro. Não tenho nada contra o Olívio, mas acho que o Tarso, se vencer a prévia e o Gauchão, terá tudo, daqui há quatro anos,  para ganhar o Campeonato Brasileiro. E o nosso grande problema não está aqui. Governador nós temos, o que nos falta é um verdadeiro Presidente da República.
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Nos céus de Paris
Alcy Cheuiche  02/01/2003

  Enquanto milhares de bombas estão sendo jogadas nos céus de Bagdá, poderia parecer um diletantismo voltar à polêmica sobre o primeiro vôo nos céus de Paris. Acontece que o assunto foi abordado (e muito bem, por sinal) pelo suplemento Eureka (ZH, 31 de março) e é preciso bater no ferro antes que esfrie. E que deixe na cabeça de muitos leitores a impressão de que o Brasil estaria errado em relação ao pioneirismo de Santos Dumont.

Na instigante matéria de Marcello Gonzato, Nick Engler, diretor da Wright Brothers Aeroplane Company, aconselha a nós brasileiros a deixarmos de ser emocionais, ufanistas, e comemorarmos com os norte-americanos o centenário do vôo dos Irmãos Wright que teria acontecido em 17 de dezembro de 1903. “Superem isso, voamos primeiro”, é o conselho que ele nos dá, numa frase emocional e ufanista. Como exemplo, cita que eles também gostariam de ter enviado o primeiro homem ao espaço, mas não choramingam (grifo nosso) porque Yuri Gagarin realizou a façanha antes deles.

Como se diz no centro do país, a conversa é para mais de metro, mas este espaço, embora pequeno, é um dos melhores que temos para dar nossa opinião.

Assim sendo, vamos deixar claro que o vôo de 1903 de Wilbur e Orville Wright só começou a ser comemorado nos Estados Unidos muitos anos depois, exatamente em 1908, quando os americanos realizaram essa façanha também nos céus de Paris. Ou seja, o mundo só aceitou que o Flyer voava, dois anos depois que o 14 Bis realizara essa façanha diante de centenas de pessoas, com documentação fotográfica e até  cinematográfica, em outubro e novembro de 1906.

Ora, como todos sabem, existe nos arquivos do Exército Francês, em Paris, uma carta de novembro de 1906 enviada por Orville Wright ao Capitão Farber solicitando todas as informações possíveis sobre o avião de Santos Dumont,  o que não foi difícil  de obter, uma vez que o nosso pioneiro liberava todos os detalhes de seus inventos para a imprensa. O Capitão Farber conhecia os Irmãos Wright de uma visita que fizera aos Estados Unidos para conhecer o Flyer. Na ocasião, embora quisessem vender o invento ao Exército Francês, os irmãos fabricantes de bicicletas se recusaram a fazer uma demonstração de vôo. Aliás, no tal vôo pioneiro de 1903, as únicas testemunhas são eles mesmos. Como a nossa Conceição, “se subiu, ninguém sabe, ninguém viu”.

Em 1909, Santos Dumont recebeu apoio da imprensa francesa para defender-se de uma campanha iniciada pela diplomacia americana a favor dos Irmãos Wright. Sua resposta foi a seguinte. O 14 Bis e o Flyer são simples caricaturas do verdadeiro avião que estou oferecendo ao mundo. E tirou a capa de cima do Demoiselle para mostrá-lo aos jornalistas. Foi esse o avião que serviu gratuitamente de modelo para a indústria aeronáutica do Estados Unidos, como até o Sr. Engler reconhece. Sob esse ponto de vista,  o pioneirismo de Santos Dumont passa a valer não uma, mas duas vezes.

Por aqui, senhor Nick Engler, ninguém choraminga diante da verdade. Apenas oferecemos provas que o senhor não possui. E como Deus não joga mas fiscaliza, o americano Neil Armstrong pisou na lua (fato que não duvidamos) exatamente no dia 20 de julho, aniversário de Santos Dumont.
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A Paz do Ponche Verde
Alcy Cheuiche

Foi no dia 28 de fevereiro de 1845. De seu acampamento, nos campos de Ponche Verde, Davi Canabarro proclamou aos farroupilhas a conclusão da paz e o reingresso do Rio Grande do Sul na comunhão brasileira.

Com essas palavras singelas, o saudoso amigo Arthur Ferreira Filho, em seu livro “História Geral do Rio Grande do Sul”, relata o essencial daquele dia histórico. Mas a desconfiança ainda era tamanha que o Barão de Caxias, no entanto um valente, fez o mesmo anúncio aos caramurus em outro local, às margens do rio Santa Maria. E depois deslocou-se para Bagé, fortemente escoltado. Ali, o pároco de São Sebastião propôs-lhe um Te Deum para comemorar a vitória. Irritado, Caxias respondeu-lhe com brusquidão: Reze um Requiem pelos mortos que eu estarei na sua igreja com todos meus oficiais. Os que morreram nesta guerra eram todos irmãos.

A costura final da paz do Ponche Verde foi feita por dois emissários enviados ao Rio de Janeiro para levar os termos do acordo ao Imperador. Por parte dos republicanos foi escolhido o Ministro Antônio Vicente da Fontoura (o mesmo da nossa conhecida rua de Petrópolis). Representou os imperiais o Coronel Manuel Marques de Souza, futuro Conde de Porto Alegre (cuja estátua, geralmente cercada de mendigos, pode ser avistada na Praça do Portão). Juntos, os dois embaixadores obtiveram o agrément do jovem D. Pedro II (com apenas 19 anos) que prometeu visitar Porto Alegre ainda em 1845, o que realmente aconteceu. Nossa capital, onde o sentimento farroupilha costuma ferver em tantos momentos de exaltação política, recebera o título de Mui leal e valerosa, exatamente por ter resistido ao cerco dos republicanos e se mantido fiel ao Império. A palavra valerosa, erro gráfico de valorosa, consagrada pelo uso, transformou-se no símbolo do analfabetismo da época. Aliás, uma das primeiras atitudes do governo farroupilha, ainda em novembro de 1836, foi criar uma escola pública em Piratini, raridade absoluta na época.

Ironias a parte, é preciso reconhecer que, na ocasião, os termos da paz do Ponche Verde foram vantajosos para ambas as partes. Muitos farroupilhas estavam dispostos a lutar até o fim. Mas a verdade é que esse fim estava muito próximo. A morte do Coronel Teixeira Nunes, no último combate da guerra, é uma prova disso. Foi um verdadeiro ataque kamikase para vingar a traição do Cerro dos Porongos. Teixeira só dispunha de um punhado de homens mal armados e sabia que iria morrer. Mas causou tantos estragos entre os imperiais que sua morte serviu para assustar o famigerado Chico Pedro e apressar a paz.

Passados 158 anos, o local em que foi assinada a paz de Ponche Verde é ainda um rincão perdido na fronteira do Uruguai. O município de D. Pedrito, carente de recursos, vem tentando, mas nunca conseguiu transformá-lo num local de turismo, num ponto de romaria cívica dos gaúchos. A verdade é que, bem no fundo, nós sabemos o porque desse desprezo. No dia em que foi assinada a paz do Ponche Verde começou o processo de ostracismo que condenou a metade sul do Rio Grande à pobreza e ao esquecimento oficial.
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A pátria e a querência
Alcy Cheuiche


Da minha janela, vejo as bandeiras tremulando no Palácio Piratini. A verde amarela do Brasil e a do Rio Grande do Sul, com as mesmas cores, mas entremeada pelo sangue dos farroupilhas. Gosto de ver as duas juntas. Principalmente nestes dias de setembro em que se encontram os dois cultos, o da Pátria e o da Querência.
Quando os farroupilhas entraram em Porto Alegre, na manhã ensolarada de 21 de setembro de 1835, ninguém pensava em separar a Província de São Pedro do Império do Brasil. Tanto é verdade, que no manifesto publicado a seguir por Bento Gonçalves, o líder da revolta não fala uma única vez em separatismo. Seu desejo era derrubar mais um déspota, dos muitos que governaram a província como sanguessugas. Oitenta e seis por cento da arrecadação de impostos de 1834 seguira diretamente para a Corte, no Rio de Janeiro, e o saldo fora consumido pela burocracia e pela corrupção. Nosso charque, produto de exportação, foi taxado tão alto que perdeu o poder de competição com o similar da Argentina. Não tínhamos escolas, estradas, pontes, nem poder judiciário. Mas nossos jovens morriam como moscas para defenderem as fronteiras do Império. E para agravar ainda mais o descontentamento geral, a Assembléia Legislativa, árdua conquista dos liberais, instalada com festas em abril de 1835, fora fechada pelo governo conservador, minoritário nas eleições, em desrespeito à própria Constituição do Império. E não esqueçam que Bento Gonçalves, além de militar, era deputado e líder do Partido Liberal.
Na mesma manhã de 21 de setembro de 1835, Fernandes Braga, o Presidente deposto pelos farroupilhas, fugiu pela Lagoa dos Patos em um barco escoltado por navios portugueses. Treze anos após a nossa independência, os chamados restauradores ou “caramurus” planejavam a volta do Brasil ao estado de colônia de Portugal. O futuro Imperador, D.Pedro II, tinha apenas nove anos e a Regência parecia tentada em “unir novamente as duas coroas”, eufemismo que significava renegar a independência. Foi então que a Maçonaria, que mobilizara os líderes da Independência, passou a planejar levantes republicanos em cada Província, para unidas formarem a República do Brasil.

Analisado por esse ângulo, o movimento que eclodiu na Ponte da Azenha, em Porto Alegre, na noite de 20 de setembro de 1835, pode ser comemorado como uma data patriótica, uma data do Brasil. Todos os liberais brasileiros eram apelidados de “farroupos”, “farroupilhas”, ou “esfarrapados” desde o levante de 1832, no Rio de Janeiro, quando tiraram da prisão os companheiros em petição de miséria. E foi no Rio de Janeiro que surgiu o jornal “A trombeta farroupilha”, denunciando os impatriotas aliados dos portugueses.
Quando acertou as condições para a paz do Ponche Verde, em 1845, Caxias, que era católico e maçon, fez tudo para reconciliar os farroupilhas com o Brasil. Em nenhum momento da História se conhece uma anistia tão ampla, que concedeu até a alforria aos escravos que tinham lutado com a farda da nossa República. E talvez por isso eu esteja sorrindo ao olhar as duas bandeiras tremulando juntas. Não é por acaso que, frente ao símbolo da primeira capital da Querência gaúcha, o Palácio Piratini, passa a Rua Duque de Caxias, nossa homenagem  a um dos grandes construtores da Pátria brasileira.  
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O Grande Paulo Autran
Alcy Cheuiche

 

  Quem já esteve na gruta de Lascaux, sabe que foi lá. Aquelas paredes pintadas pelo homem pré-histórico são verdadeiros cenários de teatro. Bisões e cavalos em disparada, mas nenhuma figura humana. Para que pintar os atores, se eles estavam ali, representando dentro da caverna? Picasso extasiou-se com essas pinturas e disse que finalmente encontrara seus mestres. Pena que as pedras não guardaram também o eco dos instrumentos musicais primitivos. E o movimento dos homens de Cro-Magnon narrando seus feitos de caça e de guerra.

Em todas as escavações arqueológicas de antigas civilizações, encontram-se vestígios de teatros. Chineses, egípcios, fenícios, gregos, romanos, cultivaram a arte de representar desde os mais remotos tempos. A acústica do teatro grego de Epidaurus, embora ao ar livre, permite que palavras apenas sussurradas cheguem aos lugares mais distantes do amplo semi-círculo. Desde as miniaturas chinesas, até os mega-espetáculos do Coliseu Romano, o teatro foi a representação da própria vida humana. E continua sendo, cada vez que se veste apenas de talento.  Para mim, o teatro nasceu em Alegrete, com os espetáculos ambulantes de Procópio Ferreira. Até hoje recordo de algumas cenas do "Avarento" de Molière que assisti aos oito anos de idade. Aos dezoito, vim estudar em Porto Alegre e descobri o Theatro São Pedro. E dentro dele, Shakespeare e Paulo Autran. Essa primeira experiência repetiu-se muitas vezes, aqui e em outros teatros do Brasil. E nenhum outro ator impressionou-me mais do que ele. Nem os mais famosos que tive diante de mim quando vivi na França e na Alemanha.

Agora, aqui está o grande Paulo Autran na pele dura de um escritor isolado do mundo. Um papel que ele mesmo escolheu para as comemorações do seu aniversário. Tradutor das falas originalmente escritas em francês, acredito que até melhorou o texto de Eric Emmanuel Schmitt. E seu desempenho é infinitamente melhor do que o de Alain Delon, na versão de estréia apresentada em Paris. Cecil Thirè o acompanha como fiel escudeiro, com luz própria, mas sempre iluminado pelo mestre. Porque Paulo Autran não apenas representa aquele escritor de talento, aquele ser humano frustrado por uma única paixão. Paulo Autran é o escritor Abel Zorko, em todos os momentos, em todas as falas. E quanto suas últimas palavras se despedem de nós, ficamos alguns segundos indecisos, querendo ainda mais, muito mais. Até que nos erguemos em uníssono para aplaudir de pé.   O que vou dizer agora é uma verdade que todos sabemos, mas que não custa repetir. Paulo Autran continua evoluindo aos oitenta anos de idade. Embora, desde muito jovem, já tenha atingido a perfeição. 
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A Batalha do Riachuelo
Alcy Cheuiche

 Foi no dia 11 de junho de 1865. Um lindo dia de sol. Na confluência dos rios Paraná e Paraguai, as águas corriam serenas em direção ao mar de Solis. Era domingo da Santíssima Trindade. Os sinos chamavam os fiéis para a missa. Tudo calmo a bordo dos navios brasileiros. Nada na paisagem tranqüila indicava a proximidade da batalha. Mas no tombadilho da nau capitânea, a Fragata Amazonas, um oficial de barbas brancas não tirava os olhos do horizonte. Cara de poucos amigos, ele sempre tinha, esse comandante Francisco Manoel Barroso da Silva. Um chefe brusco, de poucas palavras, que não inspirava a mínima simpatia a seus comandados. Mil e duzentos homens que haviam retomado dos paraguaios a cidadezinha argentina de Corrientes, estabelecendo o bloqueio fluvial. Era certo que o Marechal Solano Lopes, que tomara a iniciativa de invadir o Brasil e a Argentina, não iria aceitar aquela situação. O que não se sabia, é que os paraguaios tinham preparado uma armadilha a pouca distância dali. 
 
Foi assim. Perto de Corrientes, desaguava no rio Paraná um pequeno arroio, ou riachinho, que em espanhol se diz riachuelo. Junto dele, em segredo, os paraguaios tinham colocado 22 canhões e cerca de dois mil soldados armados com fuzis. E agora, certos de que a batalha seria decidida pela forças de terra, desciam o rio com nove navios a vapor, entre eles o nosso "Marquês de Olinda", que fôra apresado em Assunção, antes da declaração de guerra.
 
Os navios brasileiros também eram nove e me agrada recordar seus nomes. Belmonte (terra onde nasceu Cabral), o já citado Amazonas, e os demais todos com nomes tupis-guaranis: Jequetinhonha, Beberibe, Iguatemi, Mearim, Araguari, Ipiranga e Parnaíba. E foi do Mearim, às nove horas da manhã, que foi içado, na linguagem das bandeiras, o sinal de "inimigo à vista". Logo Barroso transmitiu, no mesmo código, os sinais "preparar para o combate" e o famoso "o Brasil espera que cada um cumpra o seu dever". 
 
Deus sabe como (se Deus se mete nessas batalhas), mas naquele dia os marinheiros do Brasil, atacados por água e por terra, em grande inferioridade numérica, conseguiram uma esmagadora vitória. O antipático Barroso ganhou a confiança de seus comandados e entrou para a história, dando nome a centenas de ruas Almirante Barroso e Barão do Amazonas, título nobiliárquico que o uniu para sempre à sua nau capitânea. E a palavra espanhola riachuelo ganhou as nossas ruas com tal patriotismo, que raras são as cidades que não lhe guardam o nome. 
 
Hoje, em Porto Alegre, a Rua Riachuelo, entre a Rua da Ladeira e a Avenida Borges, ostenta uma Biblioteca Pública de primeiro mundo e uma magnífica coleção de livrarias. Basta vir até aqui, ler de graça na biblioteca ou comprar um livro, até de segunda mão, para saber mais sobre o Brasil. Ser patriota não é nenhuma vergonha. O triste é gostar do Big Brother e cantar em inglês sem entender a letra.
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Farm Bill ou Búfalo Bill?
Alcy Cheuiche

Búfalo Bill foi um dos heróis da minha infância. No Cine Glória de Alegrete, cada índio ou búfalo que ele matava, era motivo para a maior gritaria das crianças. Ele era para nós o mocinho e seus adversários os bandidos. E o mocinho sempre tinha razão.
Já adolescente, caiu em minhas mãos um livro que começou a alterar esses conceitos, “Winnetou”, do alemão Karl May. Ali, a figura do índio apache ganha outra dimensão e o valor dos búfalos, alimentando os índios em suas longas migrações, me foi pela primeira vez revelado.

Mais tarde, li uma biografia do Coronel William Cody, o verdadeiro Búfalo Bill, e descobri que ele levava turistas europeus para o oeste, pagando caro para matar búfalos e índios pelas janelas dos trens. Depois, fiquei sabendo que o horroroso hábito de escalpar, de arrancar o couro cabeludo das vítimas, foi criado pelos mocinhos e não pelos bandidos. Realmente, foram os invasores das terras dos índios que pagavam por escalpo, prova material de que o índio tinha sido assassinado. Muitos anos mais tarde, filmes como “O pequeno grande homem” e “Dança com lobos” revelaram ao mundo que os próprios norte-americanos já não acreditavam mais nos seus mocinhos do faroeste. E eu sepultei para sempre o famigerado Búfalo Bill.

Agora, do mesmo país que nos ensinou a vender o patrimônio público e abrir a economia à globalização, nos vem uma lei agrícola, chamada Farm Bill, capaz de arrasar nossas exportações, causando prejuízos de bilhões de dólares à agricultura brasileira. Nós, que eliminamos até o subsídio do leite, deixando nossos produtores à mercê de preços irrisórios, assistimos estupefatos a oficialização de um gigantesco protecionismo que contraria todas as normas da Organização Mundial do Comércio. Apenas dez por cento dos produtores agrícolas dos Estados Unidos vão receber em dez anos cerca de 170 bilhões de dólares de subsídios para enfrentarem deslealmente a concorrência de países como o Brasil, capazes de produzir melhor do que eles. Um protecionismo tão descarado que provocou a revolta de jornais sérios como The New York Times. Mas que nos abre os olhos para a necessidade de defendermos também com unhas e dentes o que é nosso. E deixarmos de acreditar em falsos heróis.
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Os livros estão na Praça
Alcy Cheuiche

 
A praça é do povo, como o céu é do condor. Assim falou Castro Alves e quem somos nós para contestar?  A praça é sinônimo de democracia. Não se paga pedágio para atravessa-la. Não se reserva lugar nos bancos sob as flores dos jacarandás. Assim, nos próximos dezessete dias, esqueça os gatunos e tenha apenas cuidado para não tropeçar nos livros. E fique bem atento, que o seu escritor predileto pode estar a seu lado. Pronto para autografar um dos quinhentos mil livros que o povo levará para casa. Tantos assim? Podes crer, amigo, a feira é a paixão do povo. Como o futebol e o jogo do bicho, sempre vence o desafio da carestia.

Há quase meio século, na mui leal e valerosa cidade de Porto Alegre, a antiga Praça da Alfândega é palco da Feira do Livro. De repente, o encontro anual de umas poucas barraquinhas transformou-se num acontecimento universal. Imagino o susto do seu idealizador, Maurício Rosenblatt, aquele que tinha sobrenome de pétala de rosa, se voltasse hoje ao local dos seus sonhos.  É certo que o livro tem a forma de um tijolo, mas construir uma das maiores feiras do livro do mundo, num país que lê tão pouco, é um verdadeiro milagre cultural. Vamos aproveitar-nos disso, amada, sem nenhuma vergonha. Vamos tomar nosso pileque de literatura.  Dizia o Mario Quintana que o poema é como um gole d’água bebido no escuro. Vamos fechar os olhos aos nossos pequenos problemas e aos grandes dramas universais. É hora de saborear tranqüilamente a Feira do Livro. E dar graças a Deus porque sabemos ler.

  Mais um detalhe saboroso. Graças ao talento de Xico Stockinger e a generosidade dos patrocinadores, Mario Quintana e Carlos Drummond de Andrade estarão na Praça da Alfândega, simbolizando no bronze o nosso amor pela poesia. O mineiro e o gaúcho eram dois tímidos, só se encontraram em vida uma única vez, e vamos expo-los juntos à visitação pública. Quintana, principalmente, deixou na praça de Alegrete, a mensagem de que um erro no bronze é um erro eterno. Mas como o bronze não é eterno, ou pelo menos, não durará tanto como a poesia de Drummond e de Quintana, vamos contrariar tudo, como é a tradição da Feira do Livro, e aplaudir de pé a primeira estátua mineirucha do Brasil.  Sem esquecer de aplaudir a Câmara Rio-Grandense do Livro e o patrono da feira, nosso querido poeta Armindo Trevisan.
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